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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2017

Contributos - João Jacinto - "A Minha Consoada - António Granjo"

 

A Minha Consoada 

 

A Minha Consoada Logo ao anoitecer a mesa estava posta. Ao centro, a travessa com a pilha das rabanadas; aos lados, formando cruz os pratos do polvo frito, dos ovos verdes, dos bolos de bacalhau. Entre os braços da cruz, o arroz doce, a aletria, as filhozes.

 

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Numa banca, ao lado montes de pinhões, de avelãs e de amêndoas para depois da ceia se jogar ao rapa. Debaixo da mesa a braseira acumulada de brasas, trazidas da lareira, aquecia a sala. A geropiga transluzia no bojo das garrafas.

Nas canecas refervia o carrascão. O Pai subia as escadas vagarosamente. Sentia-se estalar as castanhas no assador. A Mãe acudia da cozinha para dar a última demão à mesa.

 

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O Pai sentava-se à cabeceira. E a garotada arrastava as cadeiras para se sentar cada um no seu lugar. Os creados sentavam-se à mesma mesa. Solenemente, o Pai partia o pão para cada um, e conforme ia dando em mão aos filhos, os seus olhos pousavam sobre eles molhados de ternura. A Mãe voltava à cozinha, e aí vinham as travessas de bacalhau com montanhas de batatas e couves.

 

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Começava a falar-se alto. A braseira queimava as pernas. Os copos e os pratos tilintavam. A outra cabeceira sentava-se a Mãe, mais perto do corredor para poder vigiar melhor a cozinha. Batia um pobre à porta. Ouvia-se os seus passos trôpegos subir as escadas e arrastarem-se pela cozinha até ao escano, cujas mesas estavam postas para os que viessem à procura de lume e da consoada.

Lá fora as árvores gemiam zurzidas pelo vento. Na noite escura, um ou outro desarrabaldado que se tinha deixado ficar mais tempo fora de casa, batia apressadamente a calçada com os socos ferrados.

 

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A garotada enchia a casa com o seu claro riso. A Mãe levava o dedo ao nariz para os fazer calar ou acenava-lhes com a cabeça para o Pai, para que se lembrassem que deviam estar com modos à mesa diante dele. O Pai sorria. Nas paredes caiadas, a luz batia sobre os retratos, cercando-os de um doirado nimbo de alegria. De vez em quando os olhos dos dois encontravam-se, demoravam-se uns nos outros um instante, e uma lágrima os enevoava como uma onda de doçura.

Um bébé, começava a dormitar sobre o espaldar da cadeira. Um creado levava-o ao colo para a cama, com os braços pendentes e o rosto deitado para a luz, còradinho como um anjo do altar. Ouviam-se as palavras mansas dos pobres conversando à lareira. O cão de guarda rosnava no quintal. O vento sacudia a noite. O Pai erguia-se quando via que já ninguém tocava no último prato e que todos tinham bebido o último gole de jeropiga. Punha as mãos. Todos estavam já de pé com as mãos postas. Ia-se levantar a mesa e dar graças a Deus. À voz do Pai no silêncio que se fizera, dizia lentamente:

- Pelas benditas almas do Purgatório, padre-nosso, ave-Maria!

 

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Erguia-se o coro das orações murmuradas. Da lareira vinha o sussurro dos pobres que acompanhavam a oração. – Pelos que andam sobre as águas do mar, para que Nosso Senhor os leve a porto de salvamento, padre-nosso, ave-Maria!. Uma creada entrava e ficava de pé, com o terço pendurado nas mãos postas. – Por todos os transviados da casa do Senhor, para que a fé os ilumine e encontrem o arrependimento e salvação, padre-nosso, ave-Maria! Acabada a ave-Maria, o mais velho adiantava-se: Deite-me a sua bênção meu Pai! E voltando-se para a outra cabeceira:

- Deite-me a sua bênção, minha Mãe! O Pai respondia gravemente: - Deus te abençoe, meu filho! A Mãe tinha levado um lenço aos olhos e fora para a cozinha destinar a comida aos pobres. E era então que se jogava os pinhões, ao calor amigo da braseira, entre a alegria doida da noite. A espera do sono, antes que lhe fizessem a cama, um pobre contava uma história que aprendera nos caminhos, enquanto o toro de carvalho ardia e os seus olhos cansados de vagabundo seguiam a chama errante. E não se sabia ao certo como é que a gente se deitava, dormia toda a santa noite, acordava no dia seguinte com uma carícia das mãos da nossa Mãe, para ir ver à igreja matriz o presépio do Menino Deus.

António Granjo

(N 27121881 - F 19101921)

António_Granjoa.jpg

António Granjo

Foto: Wikipédia

 

Pesquisa e texto remetidos pelo Sr. João Jacinto

Contributos2014.jpg

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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