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Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Noite de Crime e Mistério"

 

 

 

NOITE DE CRIME E MISTÉRIO

 

Já muito se falou sobre o caso, mas ainda é tabu na aldeia. Recentemente o Nuno Santos, aquando da publicação do seu livro abordou o tema.

 

Maria Sargenta era uma jovem Outeiro Secana como tantas outras dessa época. Maria tinha os seus sonhos, deslocava-se várias vezes à vila, até que um dia se morre de amores por um soldado do Regimento de Infantaria 19. Maria começa o seu namorico, o jovem promete a Maria casar quando terminar o serviço militar.

 

O sonho de Maria era constituir um lar e formar uma família, apesar de os tempos não correrem de feição. Pois queria lá saber do que lhe reservava o futuro.

 

Chega o dia em que o seu António terminou o serviço militar. Decidem casar, consumado o acto, vão viver para uma casa junto à Igreja Paroquial, hoje denominada casa residencial. Aí junto tinham uma pequena horta, onde está o actual parque.

 

 

O seu António passa a ser conhecido na aldeia pelo Celeirós, em virtude de ser natural da aldeia de Celeirós de Valpaços. Era um casal feliz vivia da jorna, pois o seu António trabalhava o ano todo para a família Sevivas do Penedo.

 

Já com filhas, algumas já casadouras, como a Arminda que casou com o João Maria (cagão), veio a falecer ainda nova deixando uma filha de tenra idade (Maria Alice), a Ana quando casou com o António Bucho, morreu de parto, a Cesaltina casou com um resineiro e saiu da aldeia, apenas a mais nova ainda menor assistiu a toda a tragédia, vindo a ser internada em uma casa de recolhimento, e mais tarde rumou para Lisboa.

 

 

Mas vamos ao caso;

 

Estávamos em Agosto de 1938, em Outeiro Seco vivia-se da agricultura, eram anos difíceis famílias numerosas e muitas bocas para alimentar. As famílias mais abastadas, tinham rebanhos.

 

Corria pela aldeia um boato, que o Celeirós roubava carneiros, esperava o regresso dos rebanhos no final do dia e ao chegarem perto de sua casa fazia o assalto. Os proprietários dos rebanhos andavam inquietos com esta situação.

 

Nesse dia, junto à noite, o pastor da família Félix, ao passar com o rebanho junto da casa do Celeirós, as ovelhas assustaram-se. O pastor chegou a casa contou o caso ao patrão, este chamou os filhos, para contar as reses, faltava uma.

 

 

Todas as atenções se voltam para o Celeirós, decidem ir a casa do Celeirós à procura do carneiro, e fazer justiça. Mal se adivinhava a desgraça.

 

Maria Sargenta estava em casa e o seu marido, vê chegar o grupo, coloca-se entre o grupo e o seu marido afim de evitar o pior, quando uma paulada traiçoeira lhe atinge a cabeça, cai ao chão, o grupo foge, Maria está morta, ali terminam os seus sonhos.

 

Celeirós promete vingar a morte da sua esposa, pois é um homem sem medo e de boa têmpera. Ameaça lançar fogo as medas de centeio da família Félix. Celeirós é desconfiado de tudo e todos, não fosse um dia entrar em casa e ter uma surpresa.

 

Era o dia 28 de Agosto dirigia-se para casa à noitinha, mas verifica que algo não bate certo, e decide esconder-se nuns arbustos ali perto, quando vê um grupo armado de paus, dirigir-se para sua casa.

 

Alguém do grupo sente rugir os arbustos e vê um vulto já em fuga e grita:

 

- “Vai ali o Celeirós a fugir”.

 

O grupo corre atrás do Celeirós pela calheia da poula, em direcção da ponte do sabugueiro.

 

O Celeirós procura refúgio em casa do Felizardo do Rio e esconde-se na cozinha debaixo de um escano, o grupo entra na cozinha perante a impassividade do patrão da casa, e arrasta-o pelas pernas escadas a baixo. O Celeirós apenas dizia "Adeus colete".

 

Já no pátio, ao menor descuido do grupo, escapa. O grupo perde o sentido dele. Desconhecem o rumo que tomou, mas alguém viu todos os movimentos. O grupo dirige-se para o Caleão, quando a filha do Redonda (Ilda) lhes grita:

 

- “Oh rapazes, vinde cá, que ele está ali!”.

 

E leva o grupo de agressores até ao poço que havia no local onde está hoje a casa do José dos Santos.

 

Aí estava o Celeirós encurralado, já com vários ferimentos. É retirado do poço, é arrastado pelo caminho até à Mesa de Pedra e aí leva porrada até à última. Já sem movimentos é arrastado até à porta da Tia Maria Zé, onde lhe é dado o final, aí é deixado sem vida.

 

 

Pelas 5 horas da manhã era costume nesse tempo dar de comer aos bois, para depois sair cedo para o campo.

 

Domingos Melo (Melico), quando chega à porta e vê o cadáver, chama a esposa, corre a casa do vizinho o Regedor Raúl Alves (o descalça a bota), alertam o Presidente da Junta Francisco Júlio (o Franco), são alertadas as autoridades.

 

Tenta-se saber quem seriam os seus autores, mas o silêncio é absoluto, pois tudo tem medo das famílias envolvidas. A única família que clamava justiça era a família Sevivas.

 

Mas para melhor esclarecimento aqui vai a transcrição dos factos, com a notícia publicada num Jornal em 18 de Janeiro de 1940.

 

Tudo a descoberto

 

Em 28 de Agosto de 1938, foi morto em Outeiro Seco deste concelho António Augusto "Celeirós", crime que impressionou aquela povoação e quem dele teve conhecimento, pelos requintes de ferocidade com que foi praticado. Instaurado o processo no Tribunal desta cidade, nada foi apurado de responsabilidade do crime cometido, e os seus autores ficaram em liberdade. Há pouco o Meritíssimo Juiz da Comarca, enviou um ofício ao Sr. Delegado de Saúde, para que este mandasse proceder a averiguações afim de ver se eram apurados alguns dados que levassem à descoberta dos autores do bárbaro crime. Em boa hora o Sr. Delegado Policial, encarregou dessas averiguações o Sr. Cândido Pereira, comandante do posto da PSP desta cidade, pois passados poucos dias tudo estava esclarecido, os autores do crime foram presos e já estão na cadeia dos Fortes. Já foi instaurado o respectivo processo enviado as autoridades judiciais, para que sejam pronunciados os autores do cruel assassínio que são os seguintes pessoas: José Félix, César Félix, Manuel Félix Júnior, Filipe Pereira do Rio, Manuel Pereira do Rio, Manuel Gonçalves Chaves, Henrique dos santos Costa, António Cunha, António Dias, Ilda Gonçalves Chaves, todos de Outeiro Seco. O Chefe Cândido Pereira é digno dos maiores elogios pela maneira como se houve nas suas diligência para apurar as responsabilidades de tão nefasto crime.“

 

João Jacinto

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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2 comentários:
De Nuno Santos a 15 de Maio de 2013 às 10:20
Olá amigos,
Sobre o tema não me queria pronunciar porque fere ainda a susceptibilidade de alguns membros da família, eu próprio senti essa crítica pese embora os factos tenham sido uma evidência.
No entanto dou os meus parabéns ao João Jacinto e ainda porque trás à colação um outro tema este bem actual.
Trata-se da horta que outrora foi trabalhada pela família Celeirós, mais tarde por Joaquim Piedade e depois foi utilizada como arrumos da tia Maria André e da Tia Celeste Silva,e mais recentemente requalificada pela Junta de Freguesia, quando da construção da rampa.
Essa horta esteve sempre num plano mais abaixo do caminho de acesso ao adro e à casa da D. Ritinha do Rio, ao contrário do que alguém defende.
Um abraço,
Nuno Santos
De Humberto Ferreira a 15 de Maio de 2013 às 12:57
Olá Nuno,
Em relação à rampa de acesso ao adro, julgo que os problemas poder-se-iam ter evitado abrindo uma entrada para o adro a partir da Rua do Penedo, junto à Sacristia.
Os custos teriam sido substancialmente menores, pois bastaria um corrimão junto ao muro da Igreja e a rampa já estava construída, atendendo à inclinação natural da Rua..
Por outro lado, a meu ver, o jardim tal como estava, ficava bem junto à Igreja.
Um abraço e obrigado,
Berto

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