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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Tradições desaparecidas ou em vias de desaparecerem"

 

 

Tradições desaparecidas ou em vias de desaparecerem

 

Como dizia o poeta "Mudam-se os tempos mudam-se as vontades". Quem ainda se recorda dos anos 60 ou 50, tempos difíceis, tudo viria a modificar depois do 25 de Abril de 1974. Anos em que as televisões não faziam parte do cotidiano da aldeia, rádios - poucos, quando havia algo de importante na Tv, ou se ia ao Libório, ou ao café Geraldes.

 

 

Mas além disto tudo, as gentes de Outeiro Seco eram felizes e alegres. As gentes de Outeiro Seco eram pessoas crentes. Quando passavam de frente da igreja descobriam-se, rezavam uma breve oração como testemunho da sua fé. Ao cruzarem-se nos campos ou nas ruas da aldeia, na sua labuta diária, saudavam-se de acordo com as fórmulas recebidas dos seus antepassados, e que davam um ar de amizade e de respeito comum.

 

Mas mais do que essa saudação, era um gesto de boa educação de boa vizinhança, davam a salvação como era designado esse sinal, e que vinha já dos seus antepassados. Era uma saudação que ultrapassava o "Bom dia" ou "Boa tarde", pois exprimia um desejo sentido, era um sentimento enraizado no caracter das gentes de Outeiro Seco.

 

 

Toda esta comunidade que não se deixava vencer pelas contrariedades de uma vida difícil, e olhava o futuro numa perspectiva de encontrar, se não a felicidade terrena, pelo menos encontrar a salvação.

 

Era corrente ouvir-se na aldeia saudações como:

 

- "Deus o ajude";

- "Vá na paz do Senhor";

- "Vá com Deus";

- "Boas e Santas tardes nos dê Deus";

- "A paz do Senhor esteja contigo";

- "Nosso Senhor te acompanhe";

- "Deite-me a sua bênção padrinho";

- "Deus te abençoe afilhado";

- "Deus o Salve compadre";

- "O Salve Nosso Senhor"…

 

Isto era aquilo que se ouvia durante o dia na aldeia, pois hoje já nada disto se ouve, e é necessário registar e salvar para não se perder.

 

À noite depois de toda a família recolher a casa, sentados à volta da mesa, dava-se inicio à ceia, a que hoje modernamente chamam jantar. Terminada, iniciava-se a récita do terço, pelo qual se encomendavam as almas da nossa obrigação. Só se saia da mesa com autorização do pai, antes de deitar pedia-se a bênção do pai e da mãe.

 

 

Uma outra tradição que se encontra moribunda, é o toque do sino. Hoje ligado a um sistema electrónico, já não tem os sons de outros tempos. Era ele que dava alegria e tristeza as gentes de Outeiro Seco. Havia pessoas na aldeia, que pela forma de tocar o sino, sabiam quem o tocava, outros diziam: “Vamos ter mortório, o sino toca tão aterrado”.

 

Outros viam no toque do sino mudança do tempo. Já não sabemos se em Outeiro Seco, quando se aproximava a trovoada, se havia o hábito de tocar o sino.

 

Quando se perdia um animal, dava-se o sinal de uma badalada.

 

Havia o toque a fogo.

 

Também era costume dar nove badaladas quando alguém estava para dar à luz na aldeia.

 

 

De manhã antes do nascer do sol tocava às Ave-Marias, e é com este toque que a tia Maria dos Anjos quase apanha com o badalo na cabeça.

 

Tudo isto são pequenas coisas, talvez para muitos sem importância, mas fazem parte de uma cultura de uma comunidade e que é necessário preservar, pois já chega o muito que se perdeu, e que hoje tanta falta nos fazia para conhecer o passado das nossas gentes.

 

Em breve voltaremos com mais temas.

 

João Jacinto

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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3 comentários:
De Nuno Santos a 29 de Maio de 2013 às 08:15
Parabéns ao João Jacinto por mais este registo, que serve em especial para as gerações mais novas, pese embora não tenhamos qualquer feed back se são leitores deste e dos outros blogs, quer me parecer que são mais visitantes do facebook.
Surpreendeu-me algumas tradições com os toque do sino, nomeadamente a dos nascimentos quer dos partos como o nascimento de crias, confesso de que nunca tinha ouvido falar. Já quanto à função de tocar o sino é vulgar associar-se o nome da Sra Maria dos Anjos, pois bem eu não sei se a tia Maria André, não exerceu durante mais tempo essa mesma função.
A última pessoa a tocar às Trindades ,apenas à noite porquanto de manhã acabou em desuso, foi a minha mãe, o filho quando ainda jovem e estavamos de férias, fazia questão em ser ele a tocar o sino.
Um abraço,
Nuno Santos
De joaojacinto a 29 de Maio de 2013 às 22:36
Boa noite caro conterraneo, eu não gosto de ser maçador com os textos, mas muito havia para falar a este respeito. Quanto á Tia Maria Garrilha, tenho a dizer que ela ainda tocou muito tempo o sino de manhã, as ave-Marias, ainda a vi algumas vezes e tenho-te a dizer que as vezes que a vi, a roupa que vestia era a camisa de dormir branca, e um carapuço de pano branco com um pequeno rabo, ao qual eu na altura fiquei muito admirado. Mas muito havia a dizer. Quanto as pessoas lerem ou não, isso é com elas a gente não os proibe, eu apenas tou aqui a tentar passar uma mensagem , para não deixar perder, o pouco que ainda sei, porque meu amigo tenho pena do muito que já se perdeu. Um abraço e até breve Joaojacinto
De Luís Fernandes a 29 de Maio de 2013 às 15:35
Muito deste texto é História da Normandia Tamegana.
Está (mais) um texto lindo. Daqueles que nos fazem recordar «outros tempos», com muita saúde e consolação.
….”saudação que ultrapassava o "Bom dia" ou "Boa tarde", pois exprimia um desejo sentido, era um sentimento enraizado no caracter das gentes”…, no tempo em que o Respeito se «via» e a «estimação» se sentia.
A Electrónica jamais conseguirá substituí-los - embora contribua para o seu esquecimento.
A fotografia da sineta, com o «baraço» , que na MINHA ALDEIA fica atado a altura de um braço erguido (compreendem?!), fez-me sorrir com a lembrança dos pulitos que dava para ter o prazer - e a «importância!» - de tocá-la … a preceito!

Linda memória.

Agradecimentos ao autor do Post(al) e ao autor dos retratos.

Luís Fernandes

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