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Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Cruzes nas ombreiras das portas"

 

 

 

CRUZES NAS OMBREIRAS DAS PORTAS

 

O que mais contribui para que continue a escrever sobre o passado, ou tradições da aldeia que me viu nascer (Outeiro Seco), reside no facto de querer recuperar, tradições, factos sociais e históricos, quando os presumo perdidos na memória colectiva dos Outeiro Secanos. Não escrevo para obter o maior número de comentaristas, mas sim para dar a conhecer, aos mais jovens o passado e tradições de um povo (Outeiro Seco).

 

A apresentação de qualquer imagem será sempre acompanhada de uma informação ou esclarecimento, foi sempre um dos princípios que me norteou.

 

Com a devida vénia passo ao tema, que hoje me propus aqui desenvolver.

 

Talvez já muitos Outeiro Secanos, se tenham interrogado sobre a existência de umas cruzes, em algumas habitações antigas da aldeia.

 

Muitas vezes na minha infância me interroguei sobre as ditas cruzes. Qual o seu significado? Mas nunca obtive qualquer resposta dos mais idosos.

 

 

Eram várias casas com esses sinais na aldeia. Uma que ainda preserva esse sinal, é casa que pertencia ao José Chaves (Zé Rico). Na porta que dá acesso á cozinha, possui na ombreira da porta um símbolo que representa uma cruz.

 

Havia outra no Bairro do Papeiro. Muitas delas desapareceram devido à recuperação por parte dos seus donos, mas poderão existir mais na aldeia. Será sobre esta que ainda existe que aqui vou falar.

 

Segundo as informações que recebemos as cruzes gravadas nas ombreiras das portas ou janelas, foram ao que parece, casas onde viveram Judeus, e elas foram gravadas quando se converteram à religião católica.

 

Pelos vistos, e segundo o que dizem não tinham muita escolha, senão a conversão. E como acontecia nestes casos a conversão só era aparente, e então para não serem incomodados, e mostrarem que se tinham convertido, gravavam estas cruzes, isto acontecia por volta de 1557.

 

Por vezes olhares mais atentos podem ainda permitir identificar no casario mais antigo da aldeia, muitas destas marcas ou inscrições.

 

Foto anterior invertida, oferencendo um melhor destaque

 

Não dispomos de dados concretos que nos permitam fazer uma associação directa, entre a existência dessas marcas (cruzes), e a presença de comunidades Judaicas na aldeia, mas estas características são geralmente verificadas nas antigas judiarias: mas para quem estiver interessado poderá percorrer os processos na Torre do Tombo, talvez encontre surpresas sobre Outeiro Seco. Como esta:

 

“Tribunal de Santo Oficio 1536

Inquisição de Lisboa

Processo de Pedro Leão

19/05/1554 - 27/03/1555

Tribunal de Santo Oficio, Inquisição de Lisboa Proc. 1220

Cristão-novo anos 50/Crime de Judaísmo - Actividade Vivia da sua fazenda e negociante de sedas.

Natural de Outeiro Seco termo de Chaves, Morada Vinhais diocese de Miranda. Pai Gabriel de Leão, Cristão-Novo

Mãe Genevora de Leão, cristã-nova

Casado com Inês Vaz, cristã- nova, Data da Prisão 1554

Sentença Abjuração de leve, carcere a arbítrio pagamento de custas

O réu veio de Vinhais e fora casado duas vezes sendo a primeira mulher Giomar Serrã e a segunda Violante Gomes, ambas cristãs-novas.”

 

E por hoje é tudo.

 

João Jacinto

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Outeiro Seco e o Estado Novo"

 

 

 

OUTEIRO SECO E O ESTADO NOVO

 

Com a subida ao poder, de António Oliveira Salazar, havia que mudar toda a estrutura do Estado, tanto a nível Nacional, como Regional e local.

 

O Distrito de Vila Real, tinha vindo a ser governado, pelo Doutor Timóteo Montalvão Machado, foi demitido pela ditadura, sendo colocado à frente do Governo do Distrito, o Tenente Horácio Assis Gonçalves, um dos do Golpe de 28 de Maio, cujo objectivo era implantar em todo o Distrito, as regras do Estado Novo.

 

(1)

 

Para isso é criada no Distrito a União Nacional, assim como a Legião Portuguesa, pois havia grande receio dos Democratas de Chaves, temendo um levantamento contra o Estado Novo. A Presidência da União Nacional, seria comandada no Distrito por um Flaviense, Doutor António Luís de Morais Sarmento, à frente da Legião Portuguesa no Concelho o Tenente Luís Borges Júnior, também veio a ocupar o cargo de Administrador do Concelho.

 

(2)

 

Outeiro Seco não ficava imune a todas estas mudanças, também formava a sua Comissão da União Nacional no ano de 1933:

Daniel Gonçalves Sevivas

João Pinto Meireles

Manuel da Costa

Joaquim Félix

Francisco Júlio Alves

Vindo mais tarde também a fazer parte dessa Comissão, Francisco Afonso.

 

Muitos eram aqueles Outeiro Secanos, que procediam ao seu alistamento na Legião Portuguesa, uns por obrigação, outros por convicção.

 

(2)

 

Em 1936 surge o alistamento do Legionário nº 435 - Firmino Pereira do Rio.

 

Já em pleno Mês de Outubro do Ano de 1937, é nomeada a Junta de Freguesia de Outeiro Seco, dela faziam parte, os seguintes nomes;

Francisco Júlio Alves

Eurico Rodrigues Afonso

Francisco Afonso

José Augusto

António Alonso

António Pantaleão

 

(2)

 

Mas os alistamento de Outeiro Secanos na Legião seguia a ritmo certo.

Ano 1937:

Legionário nº. 118 - Daniel Gonçalves Sevivas- Proprietário.

Legionário nº. - João Maria Ferreira Alves Montalvão.

Legionário nº. 1012 - Albano Dias Ferreira - Estudante.

Legionário nº 1013 - António Madeira - Jornaleiro

 

(2)

 

Já em pleno ano de 1938, em 4 de Maio, outro Outeiro Secano, assume as funções de Delegado do Comando Distrital da Legião Portuguesa o Capitão José Francisco Gonçalves Sevivas, Oficial do Batalhão de Caçadores 3 do Concelho de Chaves.

Mas ainda neste mesmo ano se alista na Legião Portuguesa, o Legionário Nº. 182 - Miguel Novais.

 

Face a todas estas mudanças, tanto a nível Nacional ou local, Outeiro Seco, seguia o seu percurso,

"LÁ IA CANTANDO E RINDO

LEVADO; LEVADO SEMPRE

PELAS TUBAS DO CLAMOR SEM FIM".

 

João Jacinto

 

(1) Bandeira da Legião Portuguesa. Fonte: Wikimédia

(2) Recrutas do Batalhão de Caçadores 3. Ano de 1942. Propriedade dos negativos e detenção dos direitos de autor: Humberto Ferreira

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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Quarta-feira, 20 de Novembro de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Mais uma página de história"

 

 

 

MAIS UMA PÁGINA DE HISTÓRIA

 

Há uns anos lancei no FÓRUM de Outeiro Seco, um desafio a todos os Outeiro Secanos que nessa data frequentavam o dito Fórum e, que era o seguinte:

- "Qual o Presidente da República que visitou Outeiro Seco?".

 

(1)

 

Há dias passava revista aos meus arquivos e deparei-me com um recorte de um Jornal. Jornal editado em Chaves, nessa época conhecido pelo título de "ERA NOVA" datado do ano de 1937, e nada melhor para desfazer essas dúvidas de qualquer Outeiro Secano.

 

(1)

 

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA AZINHEIRA

Há muito tempo que todos aqueles a quem interessa o património artístico da nossa terra, andavam preocupados por causa da velha e linda igreja da Senhora da Azinheira em Outeiro Seco. O lindo e secular templo que é o mais perfeito exemplar do estilo românico existente no nosso concelho, ia-se desmoronando pouco a pouco. Durante a agreste invernia do ano passado a igreja sofreu enormes prejuízos e, se não lhe acudissem a tempo, pouco faltava para que dela não restasse mais que um montão de ruinas. O prezado amigo Dr. Francisco de Barros chamou à atenção do Senhor Administrador para este caso; o Senhor Tenente Borges pediu para que o templo fosse considerado Monumento Nacional, e como tal reparado convenientemente. Outras pessoas se interessaram também e Sua Excelência o Senhor Presidente da República que visitou Outeiro Seco, no último Verão, verificou o estado lamentável em que se encontrava a linda igreja. Como tudo quanto diga respeito a Chaves merece especial carinho do nosso Venerado Chefe de Estado Sua Excelência, promoveu que o templo fosse considerado Monumento Nacional e que nele se fizessem rápidas reparações. Já lá andam a trabalhar os artistas à ordem dos técnicos competentes, e já todos podemos ter a certeza que a linda igreja Românica de Nossa Senhora da Azinheira, verá ainda passar mais alguns séculos. A tudo quanto Chaves já deve ao Exmº. General Carmona, há a acrescentar mais este grande favor, que nós aqui profundamente agradecemos.

 

 (2)

 

Mais ainda é nesse ano no verão de 1936, que Outeiro Seco ouve tocar pela primeira vez "A PORTUGUESA", ou seja o Hino Nacional, pelo GAITEIRO DE OUTEIRO SECO, em frente ao Solar dos Montalvões.

 

João Jacinto

Notas:

(1) - Fotos da ex-DGEMN

(2) - Foto adquirida. Arquivo particular. General Carmona em Braga em 1936, julgo que por ocasião do 10º aniversário do 28 de Maio de 1926

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Um prato de milhos"

 

 

 

UM PRATO DE MILHOS

 

Falar de milhos nos momentos actuais, será o mesmo que falar de um prato tradicional transmontano, desconhecendo-se por vezes a sua história, ou o seu passado não muito distante.

 

São muitas as pessoas que por estas alturas procuram restaurantes que sirvam um bom prato de milhos, pois actualmente são compostos de outras iguarias.

 

 

Recuando no tempo, Outeiro Seco não escapava ao consumo de milhos por parte da sua população. Eram tempos difíceis, e ao falar num prato de milhos, logo respondiam alguns populares: “Prato de Miséria”. Era assim que naqueles tempos eram denominados os milhos.

 

Eram tempos de guerra, tempos em que a maior parte das culturas se perdiam, cultivando-se algum milho por este ser resistente a vários factores adversos. Hora sucede que por esta altura na aldeia já se começavam a comer os tão falados milhos, as famílias eram numerosas, muitas bocas para alimentar.

 

Como por esta altura havia em abundância a couve de penca, juntava-se no pote dos milhos os talos (trochos) da couve. Era uma das formas de confeccionar os tão afamados milhos.

 

 

Outras famílias com menos possibilidades, confeccionavam só os milhos deixando-os mais soltos, como se dizia na aldeia mais "augados", comiam-se ao almoço e jantar (ceia). Quando os milhos eram mais soltos eram comum em casa dizer-se: "Vamos caiar a parede". Pela altura da matança, os milhos melhoravam um bocado, pois com a matança do porco, já se lhe juntava carne.

 

Nesses tempos de carestia, houve uma família em Outeiro Seco, que consumiu 14 alqueires de milhos, era uma família numerosa, acabando o chefe de família por ser conhecido na aldeia pela alcunha de o “Catorze”.

 

Com a guerra civil de Espanha, o seu consumo aumentou na aldeia, e nessa época era necessário manifestar toda a produção, passando a haver falta de milhos. Era necessário ir ao Grémio de Chaves fazer a compra. Sucede que esses milhos sabiam ao bolor. Se as pessoas já não gostavam dos milhos, com este sabor passaram a gostar menos, mas não havia alternativa, ou se comiam ou a barriguinha andava vazia.

 

 

Terminada a guerra civil de Espanha, reina neste pais também a miséria, o que leva muitos galegos da vizinha aldeia de Feces de Abajo a vir vender peixe pelas aldeias portuguesas. Alguns destes galegos vinham por Outeiro Seco. Ora o peixe que vendiam era o charelo, conhecido entre nós por chicharro, era abundante na época e barato, servindo para acompanhar os milhos.

 

Há nesta altura uma pequena conversa entre o vendedor de peixe (galego) e uma mulher de Outeiro Seco, "Xabana quita-me um quilo de peixe! Se no lo quires tu que-lo outro".

 

Muitas das pessoas da aldeia nem querem ouvir falar de milhos, lembram-se dos tempos de miséria. Hoje os milhos que se comem nos restaurantes, são milhos doces e os daqueles tempos eram milhos com sabor amargo.

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 6 de Novembro de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Recenseamento Eleitoral Referente ao Ano 1923"

 

 

 

RECENSEAMENTO ELEITORAL REFERENTE AO ANO 1923

           
             
Nome Idade Casado Cargo Residencia Sabe Ler Elegível
             
1- Adriano Chaves 33 Sim Propriet. Out. Seco Sim Sim
2- Alfredo Bernardo 40 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
3- Alfredo Joaquim Ferreira 46 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
4- Anibal de Jesus 29 Solteiro Jornaleiro Out. Seco Sim  
5- Antonio Bernardo 50 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
6- Antonio Ferreira Pantaleão 28 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
7- Antonio Ramos Agrela 38 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
8- Antonio Ribeiro 37 Sim Cantoneiro Out. Seco Sim  
9- Antonio dos Santos Costa 36 Solteiro Propriet. Out. Seco Sim  
10- Augusto Ressurreição 27 Sim Propriet. Out. Seco Sim Sim
11- Candido da Cruz Cortiço 37 Sim Propriet. Out. Seco Sim Sim
12- Clemente da Cruz 64 Sim Lavrador Out. Seco Sim  
13- Manuel Gonçalves Sevivas 30 Solteiro Lavrador Sta. Cruz Sim  
14- Daniel Gonçalves Sevivas 70 Sim Lavrador Sta. Cruz Sim  
15- Domingos da Cruz 32 Solteiro Propriet. Out. Seco Sim  
16- Feliz de Carvalho 37 Sim Lavrador Sta. Cruz Sim  
17- Felizardo Pereira do Rio 43 Solteiro Propriet. Out. Seco Sim  
18- Francisco Jose 46 Sim Jornaleiro Out. Seco Sim  
19- Francisco Julio Alves 30 ? ? ? Sim Ausente
20- Francisco Marcelino Antas 33 Sim Lavrador Sta. Cruz Sim  
21- Francisco dos Santos 62 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
22- João da Cruz 32 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
23- João Feliz 41 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
24- João Gonçalves Sevivas 58 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
25- João Gonçalves Sevivas   Gomes 37 Sim 1º Cabo GF Out. Seco Sim Ausente
26- João Quintas 42 Sim Jornaleiro Out. Seco Sim  
27- João Ramos Agrela 35 Sim Jornaleiro Out. Seco Sim  
28- João Santos Costa 31 Sim Jornaleiro Out. Seco Sim  
29- Joaquim Feliz 34 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
30- Joaquim Santos 32 Sim Lavrador Out. Seco Sim  
31- Jose Augusto de Moura 37 Sim Lavrador Out. Seco Sim  
32- Jose Benedito 41 Sim Lavrador Out. Seco Sim  
33- Jose da Cruz Cortiço 71 Sim Lavrador Out. Seco Sim  
34- Dr. Jose Ferreira   Montalvão 45 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
35- Jose Pereira do Rio 47 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
36- Julio Gonçalves Sevivas 71 Sim Propriet. Sta. Cruz Sim Ausente
37- Justino Alberto Jorge 55 Sim Propriet. Sta. Cruz Sim  
38- Luciano Jose Chaves 51 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
39- Manuel Jose Gomes 82 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
40- Manuel Martinho 37 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
41- Manuel Pereira do Rio 36 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
42- Manuel dos Reis 47 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
43- Manuel Sousa Casimiro 50 Sim Propriet. Out. Seco Sim  
44- Miguel da Cruz Cortiço 44 Solteiro Lavrador Out. Seco Sim  
45- Miguel Julio Alves 78 Sim Lavrador Out. Seco Sim  
47- Raul Alves Julio 47 Sim Lavrador Out. Seco Sim  
48- Zeferino Fernandes 38 Sim Lavrador Out. Seco Sim  

 

 

Desta lista de eleitores de Outeiro Seco apenas faziam parte, aqueles que sabiam ler e escrever era uma das condições para fazer o recenseamento nesta época.

 

Muitas destas pessoas ainda são lembrança de muita gente da aldeia.

 

Uma outra curiosidade é a de que embora se esteja em plena República, a mulher, ainda não gozava desse direito.

 

Também os habitantes da aldeia eram em média 300 a 400 habitantes, pois a grande maioria era analfabeta.

 

 João Jacinto

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Juntas de Paróquia # Juntas de Freguesia"

 

 

 

JUNTAS DE PARÓQUIA # JUNTAS DE FREGUESIA

 

Com este trabalho que aqui pretendemos apresentar, leva-nos em primeiro de tudo, a ter de elaborar um pequeno esboço histórico da evolução das freguesias, para assim compreendermos melhor a evolução histórica e administrativa de Outeiro Seco. Ou melhor ainda talvez o seu início como freguesia.

 

Também temos o cuidado de exemplificar através de uma Acta, como eram eleitos os elementos de uma Junta de Paróquia, no tempo da Monarquia e como era o seu funcionamento, até à implantação da República. Apresentaremos aqui a primeira Comissão Administrativa Republicana que teve Outeiro Seco, assim como um recenseamento de eleitores.

 

Só através do esboço histórico que aqui vamos traçar será possível compreender melhor a evolução da freguesia de Outeiro Seco.

 

As paróquias têm a sua origem na divisão eclesiástica, muitas destas paróquias formavam-se a partir do momento, em que num determinado local existia uma população estável, e em que era edificada uma igreja, e nela era feita a apresentação de um pároco.

 

 

Definir correctamente quando uma freguesia foi criada, é uma tarefa muito difícil, mas tudo leva a crer que a freguesia de Outeiro Seco, deve a sua origem à construção da Igreja Românica, sendo denominada logo após a sua construção de Paróquia de Santa Maria da Azinheira de Outeiro Seco, e que foi evoluindo ao longo dos tempos.

 

Em 1830 com a publicação do Decreto de 26 de Novembro, são instituídas as Juntas de Paróquia, pelo Governo provisório, sendo compostas por 3 ou 5 ou 7 elementos em função do número de fogos, eram eleitos pelos chefes de família ou cabeça de casal e tinham um mandato de 2 anos.

 

Com a reforma de Mouzinho da Silveira, são extintas as Juntas de Paróquia.

 

Já no ano de 1835 com a Lei de 25 de Abril são restabelecidas as Juntas de Paróquia, estas passavam a ter limites próprios e tinham um determinado território debaixo da sua influência.

 

Em 1836, o Código Administrativo mantem a situação assim como a Lei de 26 de Outubro de 1840, só que esta traz uma novidade o Pároco voltava a ser o Presidente da Paróquia.

 

Já em pleno ano de 1842 o Código Administrativo continua a manter o Pároco como presidente. Mas aqui a Junta de Paróquia passa a ter atribuições limitadas à administração da fábrica da igreja e dos seus bens.

 

Em 1870 o Código Administrativo extingue as Juntas de Paróquia, mas só tem a duração de 5 meses. Nesse mesmo ano é aprovado novo Código que volta a repor as Juntas de Paróquia.

 

No ano de 1878 o novo Código traz alterações além da nova organização, e das novas atribuições determina que deve haver uma livre escolha do presidente da Junta de Paróquia.

 

Mas logo no ano de 1895 o novo código repõe o Pároco como presidente. Com a implantação da República, aparece a separação do Estado da Igreja, e é colocado em vigor o Código Administrativo do ano de 1878, e que retira o Pároco da presidência.

 

A Lei nº. 28 de 7 da Agosto de 1913, passando a ser designadas por Paróquias Civis.

 

E por último a Lei nº. 621 de 23 de Junho de 1916 passa a designá-las por Juntas de Freguesia, mantendo ainda esta designação.

 

 

Depois deste breve esclarecimento, vamos a Outeiro Seco ao ano de 1885, ano de eleição da Junta de Paróquia.

 

ACTA

Aos vinte dias do mês de Novembro de mil oitocentos e oitenta e cinco pelas nove horas da manhã nesta egreja parochial de São Miguel de Outeiro Secco, segundo para se proceder á eleição de vogais da Junta de Parochia da dita freguesia para o cadrénio ede mil oitocentos oitenta e cinco a mil oitocentos e noventa e nesta compareceram os cidadãos Albano Coelho Figueiredo Antas nomeado pela mesma e eleitor do recenseamento feito deste Concelho para proceder à referida eleição e a presidir neste acto o competente titular logo na referida do artº. 278 do Código Administrativo propor aos eleitores presentes para escurtinador o cidadão Francisco Gonçalves Sevivas e Domingos Luis Madeira para secretarios os cidadaõs Manuel Rodrigues Sampaio e António Gonçalves Sevivas, convocando os eleitores que aprovassem esta proposta para passarem para o lado direito e os que a rejeitassem para o lado esquerdo tendo sido aprovado esta proposta pelas tres quartas partes da mesma. Depois de afixado na porta da igreja a votação dos membros que compareceram a mesma de seguida pelo presidente e dos secretarios se lavrou esta acta que por todos desta assembleia vai ser assinada devidamente

Antonio Gonçalves Sevivas secretario da meza

o sub escrivão asignei. Albano Coelho Figueiredo Antas

 

ACTA DA ELEIÇÃO DA JUNTA DE PAROCHIA

Aos vinte e dois do mez de Dezembro de mil oitocentos e oitenta e cinco nesta parochial igreja de São Miguel de Outeiro Seco declarando-se presente o cidadão Albano Coelho Figueiredo Antas, nomeado pela Comissão recensseadora deste concelho para presidente da assembleia eleitoral que tem de proceder à eleição de tres vogais e tres substitutos da Junta desta Parochia que hade servir no quadrienio de mil oitocentos oitenta e cinco a mil oitocentos e noventa e constituida a mesa respectiva com o dito Presidente os cidadãos Manuel Rodrigues Sampaio e Antonio Gonçalves Sevivas secretarios e Francisco Gonçalves Sevivas e Domingos Luis Madeira escurtinadores procedeu-se pelos cadernos do recensseamento à demanda dos cidadãos eleitores a declararem presente os respectivos O Regedor encontrando-se ausente e o Parocho nomeou-se o cidadão Ignacio Antonio Chaves para que apresentasse as propostas a que cada um eleitor nessa chamada e sua aproximação da mesa e do lado da mesa os restantes. O Presidente não apresentou mais eleitores e o Presidente ordenou a chamada a qual dos que della havendo-se outras tantas medidas e outros eleitores que nesse entrevalo uma das contas todas que se autorizou a composição da mesma mesa.

Edital affixado na porta da egreja. Passando a mesa ao apuramento de votos e comprimento do seu disposto no Artº. 31 do Código Administrativo reconheceu-se terem sido contados os cidadaõs seguintes Manuel Rodrigues Sampaio com vinte e tres votos. Gregorio Jose da Costa com vinte e oito votos, que foram elegidos para effectivos e para os seus substitutos os cidadaõs Antonio Rodrigues Sampaio com vinte e nove votos, e Antonio Gonçalves sevivas com dezoito votos e Francisco Chaves com dezanoves votos, nada mais a tratar procedeu-se ao seu encerramento e assinatura da acta pelo Presidente e Secretario.

 

Mas para melhor informação dos leitores vamos aqui colocar um recenseamento eleitoral realizado no ano de 1867.

 

"RECENCIAMENTO ANO1867"

Nome

Cont.

Prof.

Estado

Morada

Idade

 

Albano Coelho F. Antas

5010

Prop.

Casado

Out. Seco

43

Elegivel

Antonio Andre V. Boas

3032

43

 

Antonio Assureiras

1516

St. Cruz

67

 

Antonio Gomes Pereira

3679

Out. Seco

55

 

Antonio Gonçalves Sevivas

1165

42

 

Antonio Joaquim Sá Tenreiro

4575

Viuvo

32

Elegivel

Antonio Manuel dos Santos

1603

Casado

43

 

Diogo Jose Jorge

3330

51

 

Domingos Joaquim Acacio

2016

76

 

Francisco Antonio Pereira

2072

Alf. Inf.

76

 

Francisco Gonçalves Sevivas

3653

Prop.

45

 

Francisco Martins

1215

32

 

Padre Francisco Pires Morais

Padre

Padre

26

Elegivel

Gregorio da Costa

1112

Prop.

Casado

46

Elegivel

Joao Jose Pereira do Rio

8658

47

 

Joao Luis Marcelino

5211

Viuvo

57

 

Jose Maria Ferreira

3629

Casado

47

 

Luiz Baptista Santos

57

 

Manuel Baptista Santos

37

 

Manuel Vicente Madeira

58

 

Miguel Alves  Ferreira Montalvão

28

 

Miguel de Sá Tenrreiro

43

 

Miguel Santos Baptista

39

 

 

Estes eram os únicos eleitores que podiam eleger os vogais da Juntas da Paróquia, tinham de possuir uma certa condição social na aldeia

 

Isto era o que se passava na Monarquia, mas em Outeiro Seco muito cedo se começou a simpatizar com os ideais Republicanos, devido a vários factores, a sua proximidade com Chaves, contacto com varias pessoas de Chaves, já conhecedoras desses ideais.

 

Por tudo isto e não é por mero acaso que Outeiro Seco era nessa época talvez a aldeia mais Republicana.

 

 

A República é implantada a 5 de Outubro de 1910 e logo a 11/12/1910 Outeiro Seco forma a sua Comissão Parochial Administrativa, toda ela composta por Republicanos.

 

"Effectivos:

MANUEL DA COSTA

JULIO GONÇALVES SEVIVAS

ANTONIO LOPES DE SOUSA

FRANCISCO GONÇALVES CHAVES

JOSE PINTO MEIRELES

 

Substitutos:

JOSE BENEDITO

FRANCISCO BERNARDO COELHO

MIGUEL JULIO ALVES

JOÃO FELIZ

JOAO DA COSTA GAITÃO"

 

Sendo esta a primeira Junta Republicana, mas sobre Outeiro Seco e a República falaremos um dia mais tarde, e por hoje é tudo.

 

João Jacinto

 

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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Quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Falamos de toponímia de Outeiro Seco"

 

 

FALAMOS DE TOPONÍMIA DE OUTEIRO SECO

 

Depois desta paragem forçada por vários motivos, voltamos novamente à lida, e esperamos que seja por muito tempo.

 

Iniciámos este espaço sobre um tema muito curioso, nomes que já não existem, e outros que vão resistindo.

 

Quando falamos de património histórico, devemos ter em conta que não estamos apenas a falar de monumentos, estátuas ou praças, etc…, ou seja a cultura material.

 

A toponímia de uma aldeia ou de uma determinada região, tem um enquadramento cultural e pertence também ao domínio da percepção que o homem tem sobre o território que o rodeia.

 

O estudo da toponímia permite a compreensão dos valores e das tradições de um povo. As populações locais por vezes guardam na sua memória colectiva nomes que identificam um determinado local, mas muitas das vezes elas não compreendem o significado, desses elementos nem a origem dos mesmos.

 

 

Por este motivo, o estudo da toponímia local é sempre uma mais-valia para a história local, e para o conhecimento da memória colectiva.

 

O povo é o principal gerador destes nomes, muitas das vezes baseados na tradição ou em determinados acontecimentos nesse local.

 

As Juntas de Freguesia têm aqui um papel importante na preservação da toponímia local.

 

Decidi fazer a análise de alguns documentos antigos. Nesses documentos não são mencionados os nomes das ruas da aldeia de Outeiro Seco, sendo a divisão da aldeia feita apenas por Bairros, muitos desses Bairros já contam séculos e séculos de existência, outros mudaram de nome.

 

- Bairro do Papeiro, é mencionado num documento de 1630, mantendo ainda hoje o seu nome.

- Bairro do Pontão, mencionado no mesmo documento, e ainda mantem o seu nome.

- Bairro do Eiró, mencionado no mesmo documento, e ainda mantem o seu nome.

- Bairro do Penedo, mencionado também no documento, tendo este bairro aquando da construção da igreja, mudado para Bairro da Igreja, vindo mais tarde a regressar novamente a Bairro do Penedo.

 

 

- Bairro da Portela, não conseguimos descobrir a sua localização.

- Num documento de 1728 descobrimos o Bairro do Curro, aqui ficamos sem respiração, onde seria o dito Bairro, mais uns documentos e num documento de 1733, e para nosso espanto descobrimos o seguinte: "Maria Sobrinho e Capitão de Cavalos José Álvares Ferreira, moradores no Bairro do Curro". Nada mais, o dito bairro estava localizado, sendo ainda hoje denominado de Bairro de Santa Rita.

- Em outro documento de 1731 e 1734, aparece o Bairro da Soenga, este por mais voltas não descobrimos a sua localização.

- Em outro documento de 1731 e 1734, aparece mencionado o Bairro da Mouchica, este embora já tenha sido alterado o seu nome, os mais velhos sabem onde fica.

- Noutro documento de 1800 aparece o Bairro da Sra. do Rosário, fica junto da referida Capela, nesse Bairro aparece mencionada a Família Agrela.

 

 

Hoje todas as ruas da aldeia têm uma placa com o nome. Não sabemos qual a base dessa denominação.

 

Nós apenas queremos trazer aqui para conhecimento dos mais jovens o Outeiro Seco desaparecido, e esquecido pela memória colectiva.

 

João Jacinto

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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Quarta-feira, 31 de Julho de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Outeiro Seco - Crise e Emigração"

 

 

OUTEIRO SECO - CRISE E EMIGRAÇÃO

 

Hoje o tema que aqui trago é a emigração, aliado as várias crises, que a nossa região passou ao longo de séculos, e as quais Outeiro Seco não ficou imune.

 

Hoje somos brindados constantemente, pelos mais variados meios de comunicação, com a palavra “crise”, além dos contantes incentivos à emigração, levando a nossa juventude a abandonar o país, partindo para outras paragens, jovens talentos, e que tanta falta fariam por cá.

 

Mas o seu país nega-lhe aquilo que já noutros tempos negou aos seus antepassados. Vamos aqui relatar, ou talvez fazer um pouco de história, do passado talvez para melhor entender o presente. Pois foram várias as crises ao longo de vários séculos, muito em especial durante o período da Monarquia, e depois com a República, depois do 28 de Maio, e durante a ditadura e os anos 60, e aquela que ainda hoje nos dá cabo da paciência.

 

Houve Outeiro Secanos, que emigraram para os mais diversos países durante esses tempos, Brasil, Estados Unidos, Cuba, Uruguai, Argentina, e mais tarde já na década de 60 França.

 

Aquilo que me propus tratar aqui é a emigração/crise, antes da implantação da República, ou seja na época de 1800 a 1904. Alguma impressa da época dá-nos conta da situação desses tempos.

 

(1)

 

EMIGRAÇÃO

 

"As povoações deste concelho estão dando dia a dia cada vez maiores contingentes para a emigração nacional, com destino ao Brasil. Ultimamente saem, quase todos os dias dezenas de habitantes deste concelho, o que prova bem à evidência a grande crise da miséria, do insuportável mal estar, que esta região atravessa, crise devido ao mal geral de que enferma afinal todo o país, e especialmente ao desprezo a que os governos tem votado esta parte da nação. A continuar esta corrente de emigração dentro de pouco tempo nas pobres aldeias deste concelho, só ficarão velhos e inválidos.

 

E continua a imprensa local:

 

"Quase não passa um dia em que não vejamos partir com destino ao Brasil homens válidos que em terras estranhas, longe dos seus, vão procurar uma vida mais desafogada, do que a que passam na sua terra, onde a falta de trabalho os lança na mais deplorável miséria.

 

Por diversos motivos, como se sabe, a maior parte destes emigrantes pretende fazer viagem clandestina que se fazia pelas partes da vizinha Espanha, traz-nos à recordação a emigração para França nos anos 60 a salto. Era difícil na época obter um passaporte da parte do Governo civil, a única alternativa era a de emigrar clandestinamente, pois muitas das vezes não corriam bem, e lá se perdia tudo. Pois que a passagem era caríssima, além do pagamento suplementar ao intermediário. Esta emigração clandestina era um autêntico flagelo.

 

Sendo a maior parte dos emigrantes com destino ao Brasil , para as zona do Rio de Janeiro, Santos Pará e Manaus. Como nos recordamos nos anos 60, havia a repressão deste tipo de emigração e que era feita pela PIDE.

 

Também na época que aqui focamos havia a repressão por parte da Policia Especial de Emigração, que era comandada em Chaves pelo Sr. António Joaquim de Carvalho, este trabalhava em estreita colaboração com a Guarda Civil Espanhola. Apresentamos aqui uma pequena lista de pessoas pertencentes às aldeias do concelho, e que foram presas quando tentavam apanhar o vapor no porto de Vigo com destino ao Brasil.

 

Os presos são os seguintes:

 

José Bernardino Rodrigues, lavrador de 16 anos da freguesia de Redondelo.

António Veras, de 20 anos e Samuel Teixeira de 17 anos, ambos jornaleiros da freguesia da Torre do Couto.

José Garcia de 24 anos, carpinteiro da freguesia de Vilarelho.

Manuel Pires, António Martins, e José Alves Guerra, naturais de Vilela Seca.

Constantino Fernandes das Eiras.

José dos Reis de Vilarelho.

 

Pois seria uma lista interminável, além de vários outros emigrantes das mais diversas partes do país.

 

(2)

 

Como não podia deixar de ser, não podíamos deixar de lado Outeiro Seco, pois era aqui que eu queria chegar, Outeiro Seco não escapava a esta euforia. Uns partiam pela via legal e outros clandestinamente, foram vários os que em Vigo apanhavam o vapor com destino ao Brasil, os que detinham passaporte apanhavam o vapor, no Porto ou na Povoa de Varzim.

 

Como a miséria gera miséria, o sonho do Brasil atormentava todos os Outeiro Secanos, para muitos não passava de uma ilusão. Alguns morriam em pleno alto mar, outros vendiam todos os bens que possuíam, para comprar as passagens, outros hipotecavam os bens, muitos deles regressavam com as mãos a abanar, e outros por lá ficaram.

 

Vamos tratar aqui de alguns casos, famílias inteiras que partiram para o Brasil, e das quais não há vestígios em Outeiro Seco, e se desconhece a sua descendência em terras do Brasil. Pois em verdade não sabemos nada de nada.

 

(3)

 

Vamos falar desta família de Outeiro secanos:

 

António Dume Acácio, nasce em Outeiro Seco, por cá vive vários anos, com 46 anos de idade e no ano de 1879, parte com destino ao Brasil, desconhecemos os anos que por lá esteve. Mas não serão muitos, em 1881, assume as funções de Regedor de Paróquia em Outeiro Seco, sendo demitido dessas funções passado pouco tempo. Mas no ano de 1887, assume novamente as funções de Regedor, envolvido em uma polémica é demitido das funções. Em 1888, verificamos que Satiro Dume Acácio com a idade de 13 anos, parte com destino ao Brasil, devendo ser um familiar do tal António Dume Acácio. Mas a nossa maior surpresa é quando descobrimos que António Dume Acácio, no mês de Dezembro de 1888, já com a idade de 56 anos, acompanhado pela Eugénia da Silva esposa com a idade de 32 anos, e por António filho de 12 anos, Eugénio filho de 11 anos, João filho de 8 anos, Carminda filha de 5 anos, Olivério filho de 3 anos e Laura filha de 9 meses, partem com destino ao Brasil, não descobrimos a zona para onde foram assim como desconhecemos a sua descendência em terras do Brasil.

 

Várias outras famílias nessa época deixaram O. Seco, das quais desconhecemos o seu paradeiro por terras do Brasil, sendo muitos deles clandestinos. Apresento aqui mais alguns nomes de gente muito jovem, que partiu com a esperança de uma vida melhor, mas que tiveram de percorrer os caminhos da amargura:

 

Abril de 1880 - Ana Vicente Madeira - 22 anos acompanhada de Alfredo filho de 4 meses.

Dezembro de 1888 - Mais uma família Domingos Luís Madeira 39 anos

Acompanhantes: Maria das Dores Esposa 37 anos

Felicidade, filha 18 anos

Eugénia, filha 15 anos

Ermelinda, filha de 10 anos

Cacilda, filha de 4 anos

António, filho de 2 anos

Carlota, filha de 4 meses.

Janeiro de 1879 -António de Sá Tenreiro 21 anos.

Março de 1913- António Madeira de 29 anos.

 

Muitos mais aqui poderíamos colocar, ficamos por aqui à espera de um dia sabermos a verdade e assim completar toda esta pequena história.

 

João Jacinto

 

(1) - Fotografia pertencente a Armindo Chaves de Sousa (Armindo Escaleira) 

(2) - Fonte: Santos Pereira (2010)

(3) - Fonte: Diário de Notícias - 23032012

 

 

 

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Quarta-feira, 17 de Julho de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Uma cena das segadas passada no ano de 1888"

 

 

 

UMA CENA DAS SEGADAS PASSADA NO ANO DE 1888

 

Tudo isto decorre no período em que decorriam as segadas em Outeiro Seco, este documento leva-nos a reflectir, sobre as segadas de antigamente, pois trata-se de um documento valioso enviado pelo Administrador do concelho, para o Procurador Régio, hoje denominado Ministério Público, toda a cena se passa a 21 de Junho de 1888. Documento que aqui vou transcrever na íntegra:

 

(1)

 

“Delegado Procurador Régio

Tenho a honra de para os devidos effeitos participar a V. Exª. o seguinte:

No dia de ontem de tarde apresentou-se nesta villa o regedor de parochia desta freguesia, e um individuo chamado Manuel da Cruz Cortiço, casado lavrador, da freguesia de Outeiro Secco deste concelho e declarou que andadando a trabalhar conjuntamente com uma sua filha chamada Ludovina da Cruz, numa sua propriedade, proxima da povoação de Santa Cruz da mesma freguesia, observava que pelo caminho que de Outeiro Secco vem para esta villa, passava naquela mesma tarde , seriam trés horas, um rancho de segadores, e que tres individuos do mesmo rancho se haviam ficado um pouco atras dos seus companheiros, no mesmo caminho proximo á propriedade em que elle declarante e sua filha se achavam, agrediram com paus e pedras um moleiro chamado António Ricardo, solteiro da Ribeira do Pinheiro da freguesia da Cela, deste concelho e que actualmente reside nos moinhos de Francisco Branco de Vila Verde da Raia, situados proximos da mesma povoação, que resultara ficar ferido com alguns dentes quebrados.

 

(2)

 

Que por tal motivo deixando a sua filha a tratar do ferido, viera elle declarante, segundo os mesmos segadores dar parte do ocorrido a fim de que os agressores fossem presos. Logo que o mesmo regedor recebeu tal participação sendo-lhe pelo mesmo declarante indicado qual o rancho dos segadores a que se referia, interrogou o capataz do mesmo rancho Domingos Padroso de Parafita da freguesia Viade do concelho de Montalegre, e como este lhe indicasse quais os tres segadores do mesmo rancho que podiam ter cometido o crime por serem os que se haviam distanciado dos seus companheiros no caminho já mencionado, elle regedor mos apresentou e em vista das declarações por elle feitas e que acima são referidos os mandei recolher á cadeia civil desta villa, onde desde já ficam á dispoição de V. Exª. paraos fins convenientes.Os referidos presos sendo hoje por mim interrogados declaram;

Chamarem-se José Barroso, Manuel Barroso e Domingos de Moura, serem os primeiro e terceiros solteiros e o segundo casado , e todos naturais e residentes em Parafita, freguesia de Viade do Concelho de Montalegre que vinham de Outeiro Secco duma segada e se dirigiam p ara outra em Soutelo deste concelho. Que proximo de Santa Cruz encontraram um moleiro cujo nome se ignora e que dando a este as boas tardes e elle lhes respondera insultando-os e que por tal motivo um deles o Jose Barroso lhe atirara com uma pedra, a qual ignoram de sim ou não acertar no queixoso. Cumpre-me acrescentar que no local da captura foi incontrada uma navalha de ponta e mola que acompanha este, ao preso Manuel Barroso.

Testemunhas são.

Os mencionados Manuel da Cruz Cortiço e a filha Ludovina da Cruz, elles de Outeiro seco e onde vivem e o referido regedor Jose Maria Marques das Neves, e o official desta Admintração.

O Administrador

(assin. ilegivel) “

 

João Jacinto

(Atenção: documento escrito conforme era hábito na época)

 

(1) e (2) - Digitalização de postais da Foto Alves

 

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Quarta-feira, 26 de Junho de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Obras"

 

 

 

OBRAS

 

Hoje somos bombardeados, nos Blogues sobre Outeiro Seco, com as obras da Senhora da Portela, talvez na disputa de quem coloca mais ou menos fotos, qual a melhor, ou à procura do maior número de comentários.

 

A mim, pessoalmente, não é isso que me preocupa, mas sim se elas são realizadas de acordo com determinadas normas e não se destrua o passado.

 

Porque obras sempre houve em Outeiro Seco, umas maiores e outras mais pequenas, mas que no fundo não passam de obras.

 

 

Para se levarem a efeito estas, recorreu-se a um peditório pela Aldeia, em que cada Outeiro Secano contribuiu conforme as suas posses.

 

Antigamente não era necessária, proceder a estes peditórios, a própria igreja tinha bens suficientes (rendimentos) para a realização das obras.

 

Hoje temos todas estas modernices, mas talvez antigamente as coisas fossem diferentes. Será isso que vamos tentar demonstrar com o texto que aqui vamos transcrever.

 

 

É um documento do Administrador do Concelho, para a Irmandade das Almas de Outeiro Seco, e que remonta ao ano de 1867.

 

"Devolvo a V. Exª. o incluso orçamento da Irmandade das Almas eleita na Igreja da Freguesia de Outeiro Seco, relativo ao actual ano económico fazendo saber a V. Exª. , que o orçamento atento à importância do documento, não pode conter rasuras devendo para isso ser reformado e que por aprovação das últimas verbas, é preciso fazer uma acta assinada pelos mesários, e que duas partes se declare a qualidade da obra que há a fazer no pavimento da igreja, e bem assim na Capela de Santa Ana, e cuja cópia da mencionada obra deverá acompanhar o orçamento."

 

S.J.C.

 

Tudo isto era o que se passava no longínquo ano de 1867, em que pelos visto também se faziam obras.

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "A Sarafina"

 

 

 

A SARAFINA

 

Hoje vamos aqui trazer uma personagem muito popular, que nos anos 60 animou as ruas da aldeia de Outeiro Seco. Fazia-se acompanhar do seu jumento preto.

 

Esta mendiga, tinha uma língua muito destravada, para um Outeiro Secano levar uma carga de insultos, bastava puxar o rabo ao jumento.

 

 

Foi protagonista de várias bulhas na festa da Senhora da Azinheira, mesmo com elementos da GNR. Na aldeia eram constantes as bulhas, quando se encontrava ela e outra mendiga de alcunha a Albardeira, ora no largo do tanque ou junto da taberna do Zé do Rio.

 

Não serão as suas bulhas que aqui vamos relatar, mas sim o seu fim trágico.

 

 

Estávamos a 28 de Fevereiro de 1967. Nesse dia, logo de manhã cedo, a Sarafina fez a sua visita a Outeiro Seco, como era hábito todos os dias. Dirigiu-se para os lados da Lagoa. Aí nesse mesmo dia foi descoberta já sem vida.

 

Começou nesse mesmo dia por volta das duas da tarde a circular a notícia da sua morte. Mas só a 18 de Março se descobre quem matou a Sarafina.

 

O Comandante do Posto da GNR desta cidade Srº. 2º. Sargento Alberto Correia em continuação das diligencias que procedeu por a descoberto o autor ou autores do crime de assassínio, de que foi vítima Georgina Almeida conhecida popularmente por "SARAFINA", de 65 anos , casada e natural de Vidago, e residente á mais de 40 anos no Bairro do Telhado desta cidade a qual teve lugar no dia 28 no caminho público , no lugar denominado de "Cantinho" situado na veiga circundado por terrenos pertencentes a proprietários de Santo Estevão e Faiões, entregou no dia 4 do corrente no tribunal desta comarca como autor da pratica daquele crime Manuel Vinhais dos Reis, solteiro de 32 anos residente em Faiões. E que segundo foi apurado foi visto por pessoas cujas declarações não podem ser desacreditadas do local do crime, ao cortar uma pequena vara de amieiro no momento em que a Sarafina conduzindo o seu burrico se dirigia em direcção a esta cidade donde tinha partido na manha de 28. A Sarafina dedicava-se à venda de artigos de tenda, e assim simulava a mendicidade a que se entregava à muitos anos. O presumível assassino que sofre desde à anos de perturbações mentais pelo que já esteve internado várias vezes, transferido da cadeia desta cidade pra um hospital no Porto.

 

Assim terminou os seus dias a Sarafina.

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Achado insólito"

 

 

 

Achado insólito

 

Hoje ficamos muitas das vezes, admirados com determinadas notícias, nos meios de informação, e logo se dá início aos mais variados comentários. Logo a notícia corre o mundo todo em segundos e, sabemos coisas que há um século atrás demorava anos a chegar, ou nunca chegava.

 

Logo um dos comentários que se houve das pessoas a estas notícias, "noutros tempos não havia isto", "eram logo castigados", mas o conhecimento que temos é que também existiam estes casos, não havia era meios de os fazer chegar as pessoas.

 

 

Este caso remonta ao ano de 1887:

 

No dia 15 de Março de 1887, no lugar chamado de Vale Travesso, dentro de uma cortinha, que fica junto à estrada(*) que vai para Vilarelho, Torre e Vilela Seca foram encontrados os ossos de um craneo de uma creança e bem assim um farrapo de um xaile e outro de um avental por um rapaz, filho de João Joaquim do Penedo, do mesmo lugar de Outeiro Seco, os ossos e os farrapos que se acham agora na posse do mesmo. O caso foi comunicado ao Regedor, que seguiu para o local para verificar e comunicar o caso ao Administrador do Concelho. Tal caso provocou um grande alarido na aldeia, além de vários comentários, deslocando-se para o local muitos moradores da aldeia.

 

(*) Atenção a estrada que hoje liga a Vilarelho, antes era feita pela antiga estrada da Torre.

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Tradições - Jogo do fito"

 

 

 

TRADIÇÕES - JOGO DO FITO

 

Podem dizer, ou mesmo afirmar que Outeiro Sêco era uma aldeia de tradições, muitas delas já perdidas outras embora envergonhadas, lá vão aparecendo de tempos-a-tempos.

 

Uma que era muito usual, era aquela a que chamamos jogo da malha ou do fito. Todos os Domingos, Feriados, ou dias Santos, da parte de tarde se realizavam grandes partidas.

 

O local tradicionalmente escolhido para essas partidas era a Rua dos Pelames, hoje denominada Rua do Sol. Aí se situava a Taberna do Zé do Rio. Aí no final de cada partida se refrescavam as gargantas com um bom tinto (cerveja desse tempo), sendo ele da colheita da Ribalta.

 

Era o local ideal para grandes partidas, que perduravam pela tarde fora, assistindo muitas das vezes a cenas de pancadaria, quando o Deus Baco azedava. Eram os passatempos dos anos 50 e 60.

 

 

Estávamos a 30 de Julho de 1966, por sinal o calendário marcava mais um Domingo, e que seria mais uma tarde de fito, na Rua dos Pelames. Mas nessa tarde, as coisas não correram da melhor forma, como podemos verificar pelo relato que aqui vamos escrever:

 

Elisa Sargento, solteira doméstica de Outeiro Sêco, queixou-se contra o seu vizinho José Figueiras (ZÉ DA EIRA), casado jornaleiro por sem qualquer motivo justificado a ter agredido com uma malha de ferro, com que nessa altura jogava o fito, instrumento que não largou da mão produzindo-lhe um ferimento na parte interior do lado de dentro da face. Por sua vez José Figueiras Júnior, queixou-se contra Elisa Sargento por quando com mais três companheiras ali residentes. Jogavam o fito na via pública daquela povoação, e ele de a ter repreendido para que lhe não interrompesse o jogo e passasse por outro lado, gerando-se uma discussão tendo sido por ela insultado.

 

Pois assim eram muitas das vezes o final das partidas de fito na Rua dos Pelames.

 

João Jacinto

 

 

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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Tradições desaparecidas ou em vias de desaparecerem"

 

 

Tradições desaparecidas ou em vias de desaparecerem

 

Como dizia o poeta "Mudam-se os tempos mudam-se as vontades". Quem ainda se recorda dos anos 60 ou 50, tempos difíceis, tudo viria a modificar depois do 25 de Abril de 1974. Anos em que as televisões não faziam parte do cotidiano da aldeia, rádios - poucos, quando havia algo de importante na Tv, ou se ia ao Libório, ou ao café Geraldes.

 

 

Mas além disto tudo, as gentes de Outeiro Seco eram felizes e alegres. As gentes de Outeiro Seco eram pessoas crentes. Quando passavam de frente da igreja descobriam-se, rezavam uma breve oração como testemunho da sua fé. Ao cruzarem-se nos campos ou nas ruas da aldeia, na sua labuta diária, saudavam-se de acordo com as fórmulas recebidas dos seus antepassados, e que davam um ar de amizade e de respeito comum.

 

Mas mais do que essa saudação, era um gesto de boa educação de boa vizinhança, davam a salvação como era designado esse sinal, e que vinha já dos seus antepassados. Era uma saudação que ultrapassava o "Bom dia" ou "Boa tarde", pois exprimia um desejo sentido, era um sentimento enraizado no caracter das gentes de Outeiro Seco.

 

 

Toda esta comunidade que não se deixava vencer pelas contrariedades de uma vida difícil, e olhava o futuro numa perspectiva de encontrar, se não a felicidade terrena, pelo menos encontrar a salvação.

 

Era corrente ouvir-se na aldeia saudações como:

 

- "Deus o ajude";

- "Vá na paz do Senhor";

- "Vá com Deus";

- "Boas e Santas tardes nos dê Deus";

- "A paz do Senhor esteja contigo";

- "Nosso Senhor te acompanhe";

- "Deite-me a sua bênção padrinho";

- "Deus te abençoe afilhado";

- "Deus o Salve compadre";

- "O Salve Nosso Senhor"…

 

Isto era aquilo que se ouvia durante o dia na aldeia, pois hoje já nada disto se ouve, e é necessário registar e salvar para não se perder.

 

À noite depois de toda a família recolher a casa, sentados à volta da mesa, dava-se inicio à ceia, a que hoje modernamente chamam jantar. Terminada, iniciava-se a récita do terço, pelo qual se encomendavam as almas da nossa obrigação. Só se saia da mesa com autorização do pai, antes de deitar pedia-se a bênção do pai e da mãe.

 

 

Uma outra tradição que se encontra moribunda, é o toque do sino. Hoje ligado a um sistema electrónico, já não tem os sons de outros tempos. Era ele que dava alegria e tristeza as gentes de Outeiro Seco. Havia pessoas na aldeia, que pela forma de tocar o sino, sabiam quem o tocava, outros diziam: “Vamos ter mortório, o sino toca tão aterrado”.

 

Outros viam no toque do sino mudança do tempo. Já não sabemos se em Outeiro Seco, quando se aproximava a trovoada, se havia o hábito de tocar o sino.

 

Quando se perdia um animal, dava-se o sinal de uma badalada.

 

Havia o toque a fogo.

 

Também era costume dar nove badaladas quando alguém estava para dar à luz na aldeia.

 

 

De manhã antes do nascer do sol tocava às Ave-Marias, e é com este toque que a tia Maria dos Anjos quase apanha com o badalo na cabeça.

 

Tudo isto são pequenas coisas, talvez para muitos sem importância, mas fazem parte de uma cultura de uma comunidade e que é necessário preservar, pois já chega o muito que se perdeu, e que hoje tanta falta nos fazia para conhecer o passado das nossas gentes.

 

Em breve voltaremos com mais temas.

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Noite de Crime e Mistério"

 

 

 

NOITE DE CRIME E MISTÉRIO

 

Já muito se falou sobre o caso, mas ainda é tabu na aldeia. Recentemente o Nuno Santos, aquando da publicação do seu livro abordou o tema.

 

Maria Sargenta era uma jovem Outeiro Secana como tantas outras dessa época. Maria tinha os seus sonhos, deslocava-se várias vezes à vila, até que um dia se morre de amores por um soldado do Regimento de Infantaria 19. Maria começa o seu namorico, o jovem promete a Maria casar quando terminar o serviço militar.

 

O sonho de Maria era constituir um lar e formar uma família, apesar de os tempos não correrem de feição. Pois queria lá saber do que lhe reservava o futuro.

 

Chega o dia em que o seu António terminou o serviço militar. Decidem casar, consumado o acto, vão viver para uma casa junto à Igreja Paroquial, hoje denominada casa residencial. Aí junto tinham uma pequena horta, onde está o actual parque.

 

 

O seu António passa a ser conhecido na aldeia pelo Celeirós, em virtude de ser natural da aldeia de Celeirós de Valpaços. Era um casal feliz vivia da jorna, pois o seu António trabalhava o ano todo para a família Sevivas do Penedo.

 

Já com filhas, algumas já casadouras, como a Arminda que casou com o João Maria (cagão), veio a falecer ainda nova deixando uma filha de tenra idade (Maria Alice), a Ana quando casou com o António Bucho, morreu de parto, a Cesaltina casou com um resineiro e saiu da aldeia, apenas a mais nova ainda menor assistiu a toda a tragédia, vindo a ser internada em uma casa de recolhimento, e mais tarde rumou para Lisboa.

 

 

Mas vamos ao caso;

 

Estávamos em Agosto de 1938, em Outeiro Seco vivia-se da agricultura, eram anos difíceis famílias numerosas e muitas bocas para alimentar. As famílias mais abastadas, tinham rebanhos.

 

Corria pela aldeia um boato, que o Celeirós roubava carneiros, esperava o regresso dos rebanhos no final do dia e ao chegarem perto de sua casa fazia o assalto. Os proprietários dos rebanhos andavam inquietos com esta situação.

 

Nesse dia, junto à noite, o pastor da família Félix, ao passar com o rebanho junto da casa do Celeirós, as ovelhas assustaram-se. O pastor chegou a casa contou o caso ao patrão, este chamou os filhos, para contar as reses, faltava uma.

 

 

Todas as atenções se voltam para o Celeirós, decidem ir a casa do Celeirós à procura do carneiro, e fazer justiça. Mal se adivinhava a desgraça.

 

Maria Sargenta estava em casa e o seu marido, vê chegar o grupo, coloca-se entre o grupo e o seu marido afim de evitar o pior, quando uma paulada traiçoeira lhe atinge a cabeça, cai ao chão, o grupo foge, Maria está morta, ali terminam os seus sonhos.

 

Celeirós promete vingar a morte da sua esposa, pois é um homem sem medo e de boa têmpera. Ameaça lançar fogo as medas de centeio da família Félix. Celeirós é desconfiado de tudo e todos, não fosse um dia entrar em casa e ter uma surpresa.

 

Era o dia 28 de Agosto dirigia-se para casa à noitinha, mas verifica que algo não bate certo, e decide esconder-se nuns arbustos ali perto, quando vê um grupo armado de paus, dirigir-se para sua casa.

 

Alguém do grupo sente rugir os arbustos e vê um vulto já em fuga e grita:

 

- “Vai ali o Celeirós a fugir”.

 

O grupo corre atrás do Celeirós pela calheia da poula, em direcção da ponte do sabugueiro.

 

O Celeirós procura refúgio em casa do Felizardo do Rio e esconde-se na cozinha debaixo de um escano, o grupo entra na cozinha perante a impassividade do patrão da casa, e arrasta-o pelas pernas escadas a baixo. O Celeirós apenas dizia "Adeus colete".

 

Já no pátio, ao menor descuido do grupo, escapa. O grupo perde o sentido dele. Desconhecem o rumo que tomou, mas alguém viu todos os movimentos. O grupo dirige-se para o Caleão, quando a filha do Redonda (Ilda) lhes grita:

 

- “Oh rapazes, vinde cá, que ele está ali!”.

 

E leva o grupo de agressores até ao poço que havia no local onde está hoje a casa do José dos Santos.

 

Aí estava o Celeirós encurralado, já com vários ferimentos. É retirado do poço, é arrastado pelo caminho até à Mesa de Pedra e aí leva porrada até à última. Já sem movimentos é arrastado até à porta da Tia Maria Zé, onde lhe é dado o final, aí é deixado sem vida.

 

 

Pelas 5 horas da manhã era costume nesse tempo dar de comer aos bois, para depois sair cedo para o campo.

 

Domingos Melo (Melico), quando chega à porta e vê o cadáver, chama a esposa, corre a casa do vizinho o Regedor Raúl Alves (o descalça a bota), alertam o Presidente da Junta Francisco Júlio (o Franco), são alertadas as autoridades.

 

Tenta-se saber quem seriam os seus autores, mas o silêncio é absoluto, pois tudo tem medo das famílias envolvidas. A única família que clamava justiça era a família Sevivas.

 

Mas para melhor esclarecimento aqui vai a transcrição dos factos, com a notícia publicada num Jornal em 18 de Janeiro de 1940.

 

Tudo a descoberto

 

Em 28 de Agosto de 1938, foi morto em Outeiro Seco deste concelho António Augusto "Celeirós", crime que impressionou aquela povoação e quem dele teve conhecimento, pelos requintes de ferocidade com que foi praticado. Instaurado o processo no Tribunal desta cidade, nada foi apurado de responsabilidade do crime cometido, e os seus autores ficaram em liberdade. Há pouco o Meritíssimo Juiz da Comarca, enviou um ofício ao Sr. Delegado de Saúde, para que este mandasse proceder a averiguações afim de ver se eram apurados alguns dados que levassem à descoberta dos autores do bárbaro crime. Em boa hora o Sr. Delegado Policial, encarregou dessas averiguações o Sr. Cândido Pereira, comandante do posto da PSP desta cidade, pois passados poucos dias tudo estava esclarecido, os autores do crime foram presos e já estão na cadeia dos Fortes. Já foi instaurado o respectivo processo enviado as autoridades judiciais, para que sejam pronunciados os autores do cruel assassínio que são os seguintes pessoas: José Félix, César Félix, Manuel Félix Júnior, Filipe Pereira do Rio, Manuel Pereira do Rio, Manuel Gonçalves Chaves, Henrique dos santos Costa, António Cunha, António Dias, Ilda Gonçalves Chaves, todos de Outeiro Seco. O Chefe Cândido Pereira é digno dos maiores elogios pela maneira como se houve nas suas diligência para apurar as responsabilidades de tão nefasto crime.“

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 1 de Maio de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Um Desacato"

 

 

 

UM DESACATO

 

Hoje, quando surge uma desordem ou outra situação, a primeira coisa que se faz é chamar a autoridade.

 

 

Noutros tempos a situação era diferente, ou intervinha o Regedor autoridade máxima da freguesia, ou as pessoas se deslocavam à Vila apresentando queixa no Administrador do Concelho, este resolvendo muitas vezes as situações, ou remetendo-as para o Procurador Régio.

 

O caso que aqui vou relatar passou-se em Outeiro Seco em 21 de Novembro de 1887.

 

Para Procurador Régio

Tenho a honra de participar a V. Exª. para os devidos fins que julgar convenientes que veio a esta Administração, queixar-se José Joaquim Penedo filho de João Joaquim Penedo, do lugar da freguesia de Outeiro Seco deste concelho, de que no dia 20 do corrente pelas 4 horas da tarde pouco mais ou menos, no sítio do Painho limite da dita freguesia, fora espancado por Francisco filho de José Bernardo do mesmo lugar o qual com um sacho lhe batera além de outras pancadas, uma na cabeça fazendo-lhe um ferimento. Testemunhas Maria filha de José Villa Frade, Florinda Rosa casada com António Baptista e Angélica mulher de Francisco Portela.

O Administrador

 

 

Mas o caso não fica por aqui;

 

Do Regedor de Outeiro Seco

José e Manuel filhos de Joaquim do Penedo, apedrejaram Francisco filho de José Bernardo, e que a mãe do referido José e Manuel de nome Emília, ofenderam com palavras obscenas a Margarida Alves.

 

Pois era assim que funcionava o dia à dia da aldeia de Outeiro Seco.

 

João Jacinto

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Uma Polémica"

 

 

 

UMA POLÉMICA

 

Já se escreveu bastante sobre a representação do Ramo, e do Auto da Paixão de Cristo, o conhecido Acto, realizados noutros tempos na aldeia de Outeiro Seco.

 

Segundo aquilo que se escreveu, e aquilo que as pessoas mais idosas nos dizem, é que o Ramo teria sido representado na aldeia nos anos de 1923, 1932, 1957 e mais recente na década de 90.

 

 

Quanto ao Acto foi representado nos anos 40 e 60. Pelos vistos esses Cascos, encontram-se em poder de algumas pessoas da aldeia.

 

Na minha modesta biblioteca, existem alguns exemplares desses ditos cascos, inclusive um original do Auto da Paixão do Padre Francisco Vaz de Guimarães, que data do ano de 1820.

 

 

Mas não será disto que aqui vamos tratar, porque até não tem influência nenhuma, mais casco ou menos casco. O problema é outro, é a polémica que se gera em volta da representação do Ramo, entre o Administrador do Concelho, Manuel Augusto Granjo, e os habitantes da Aldeia, com o padre e o regedor pelo meio.

 

 

Decorria o ano de 1889, as gentes de Outeiro Seco, havia já vários meses que decorriam a bom ritmo os ensaios para levar a cena o Ramo, no dia 24 de Dezembro (noite), junto à Capela da Senhora do Rosário.

 

Não sabemos quais os motivos ou quem alertou o Administrador, da realização deste evento. O pouco que sabemos é que o Padre da Paróquia recebe uma carta do Administrador do Concelho, em 10 de Dezembro, onde lhe solicita informação, sobre o acto a levar a efeito na noite de 24. Mas não é só o Padre da Paróquia, também o Regedor, autoridade máxima da Paróquia.

 

 

A este o Administrador, envia-lhe a seguinte carta:

 

Para Regedor da Paroquia de Outeiro Seco

"Constando-me que essa povoação se projecta levar a effeito no dia 24 do corrente à noite um acto quaisquer".

 

Nesta mesma carta, ameaça a população com o envio de uma força de Cavalaria, caso a sua ordem não seja acatada. Mas o povo não desarma e pressiona o Regedor. Então a resposta do Regedor, é esta:

 

"Não se faz na igreja, mas em casa particular, pelo que não estará em causa a ordem moral e pública".

 

 

 

E assim Outeiro Seco pode levar à cena o Ramo, pois estas representações tinham sido proibidas dentro das igrejas e nos seus adros.

 

Como podem ver os outeiro-secanos, já nesta altura a Aldeia representava o Ramo, em condições bem mais adversas.

 

João Jacinto

 

 

Nota: Quero expressar o meu agradecimento à amiga que me ajudou com as fotografias para este post do Sr. João Jacinto. Muito obrigado. Berto

 

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Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Uma história verídica"

 

 

Uma História Verídica

 

Desde muito jovem, ouvia os meus familiares lá em casa contarem uma história.

 

Quando era rapazote, no mês de Agosto, a gente juntava-se no largo do tanque, e combinava-se a ida ao arraial, a determinada aldeia, pois era sempre a pé não havia meio de transporte.

 

Então o pessoal, pelas 8 horas da noite, depois de jantar, reunido o grupo lá partia com destino ao arraial.

 

Ora acontece que uma das aldeias que nunca se faltava era Vila Verde e Bustelo.

 

 

Para Bustelo fazia-se percurso pelo caminho das Portelas, lá no alto havia umas vinhas, sempre que ali passava lembrava-me daquela história, que ouvia lá por casa.

 

Pois aí havia uns muros, junto á vinha do Ilídio André havia uma cruz.

 

Diziam os meus familiares, que aí foi morto um jovem de Bustelo, quando iam do arraial de Outeiro Seco.

 

Também nos meus tempos de estudante ouvia dos colegas da aldeia de Bustelo, alguns piropos como este, "Outeiro Seco tem muitas cruzes o que significa muitas mortes", e que tinham sido os de Outeiro Seco que tinham morto o tal jovem.

 

Isto desde muito jovem mexeu comigo, e sempre que passava no dito lugar lembrava a história.

 

Tentei várias vezes saber a verdade, mas nada, procurei, rebusquei, mas nada encontrei.

 

Estávamos no ano de 1887, era dia 8 de Setembro, festa da Senhora da Azinheira. Ora acontece que o arraial era de véspera, ou seja dia 7, pois esta festa era a mais concorrida de todo o vale.

 

Um grupo de jovens de Bustelo, decide vir ao dito arraial, pois nem é tarde nem cedo, pés ao caminho, mas nessa época por tudo e por nada se armavam grandes cenas de pancadaria, mas não é o caso.

 

 

Depois de uma noite calma, e bem divertida, o grupo de jovens decide regressar á aldeia, para uma boa soneca. Caminho das Portelas acima lá vai o grupo, chegados ao alto das Portelas o jovem João de Moraes, fica para trás sentindo necessidade de fazer as suas necessidades fisiológicas, enquanto o grupo continua a caminhada.

 

No meio da noite, e no maior silêncio soa um grito "Lá vêem os de Outeiro Seco!.” O João desata a correr em direcção ao grupo, os colegas pensando que era pessoal de Outeiro Seco para lhes dar tareia. Soa um disparo em plena noite, o João é atingido mortalmente pelo projéctil, cai ao chão numa autêntica poça de sangue, os colegas verificam que falta alguém no grupo, é o João, voltam atrás á sua procura. Encontram o João já sem vida, não sabem o que fazer. Corre um até á aldeia a pedir ajuda para o sucedido. Mas já nada pode ser feito o João está morto.

 

Como este acto foi cometido no termo de Outeiro Seco, é da jurisdição do Regedor de Outeiro Seco, autoridade da época. Avisado o Regedor de Outeiro Seco, inicia as diligências para apuramento da verdade.

 

Após um interrogatório dos restantes elementos, é descoberto o autor do disparo, foi o colega e vizinho Manuel Bernardino, o autor do disparo.

 

O João Moraes era filho de Júlio Moraes, segundo o que se dizia o João, era um estudante. Não sei se a dita cruz ainda por lá existe, já há uns bons aninhos que por lá não passo.

 

 

Para melhor esclarecimento aí vai o documento.

 

8 de Setembro de 1887

Do Regedor de Outeiro Secco

Dizendo que hontem pelas 11 horas da noite no sitio das Portellas termo de Outeiro Secco mataram João Moraes filho de Júlio Moraes, e que quem o matou fora Manuel Bernardino ambos de Bustelo.

O Regedor

.............................

Para Administrador do Concelho

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - "Padre Luís Manuel da Costa"

 

 

 

Autor das Lendas publicadas no Blog

 

Como o prometido é devido, hoje segue o Autor das Lendas publicadas sobre Outeiro Seco, é natural de Bustelo, seu nome é Padre Luís Manuel da Costa, filho de António da Costa, e Amélia de Jesus Moura, iniciou a sua vida de Sacerdote em 23 de Agosto de 1959, tendo nesse dia realizado missa nova em Bustelo, esteve nesse dia em festa a Paróquia de Bustelo. Sabemos que ainda é vivo, e de tempos-a-tempos visita Bustelo.

 

 

Um bem-haja para o Padre Luís Costa, e um obrigado pelas lendas sobre Outeiro Seco que registou, e não ficam no esquecimento.

 

 

João Jacinto

 

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Quarta-feira, 27 de Março de 2013

Contributos - Sr. João Jacinto - António "Escravo"

 

ANTÓNIO "ESCRAVO"

 

Quem era este António?

 

António era negro, não sabemos com que idade veio para Outeiro Seco, nem de onde veio.

 

O pouco que sabemos, é que o António era um escravo, que caminhou pelas ruas de Outeiro Seco, e aqui teve bons e maus momentos, viu correr a água da Ribeira Torre, e frequentou a Igreja de São Miguel.

 

 

Também não descobrimos se faleceu em Outeiro Seco, sabemos que ele por aqui andou em 1730. Não sabemos quais as suas funções, talvez escravo de todo o serviço, esta seria a sua condição.

 

De que país seria o António?

 

Também não sabemos se António seria vivo quando foi abolida a escravidão em 1761, no Reinado de D. José I, nesta data o António contaria 45 Primaveras. Aqui transcrevemos parte do seu registo de batismo.

 

"António, negro escravo do reverendo Domingos Vaz de Morais, natural deste lugar de Outeiro Sequo, e nelle morador foi baptizado solenemente e pus os Santos Óleos em a Igreja de Sam Miguel desta freguesia em os vinte e sete dias de (Março)Maio".

 

Foi batizado pelo Padre Domingos Pinheiro. O António foi batizado em Outeiro Seco com a idade de (14)11 anos.

 

Uma anotação na parte esquerda da ficha apenas tem isto "António escravo".

 

Em que lugar de Outeiro Seco repousará este António?

 

Será que este António viu a liberdade no ano de 1761?

 

Teria o António constituído família, ou será que não chegou a ver a sua liberdade?

 

 

Quantas histórias deste António nos poderiam revelar as ruas de Outeiro Seco, as pedras das casas, a Igreja Paroquial. São interrogações para as quais não temos resposta.

 

Ficamos á espera que alguém um dia nos diga qualquer coisa acerca do António.

 

Para todos, uma BOA PÁSCOA.

 

João Jacinto

 

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