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Sábado, 5 de Abril de 2014

Contributos - Sr. Luís Fernandes - “GIESTAS”

 

“GIESTAS”

 

 

O século vinte chegava a meio.

 

Na NOSSA TERRA o Inverno era gelado.

 

O Outono, da Feira dos Santos.

 

O Verão, do S. Caetano e das sestas.

 

A Primavera, da Srª das Brotas e das promessas cumpridas na Srª da Saúde, de S. Pedro de Agostém; da chegada das andorinhas, do verdejar dos campos e do florir das árvores e das plantas.

 

 

O “CAMPO” cobria-se de “merendeiras”, coradinhas e perfumadas.

 

Os “NETOS da GRANGINHA” tinham por onde brincar com graça e alegria.

 

No regresso da Escola (os irmãos Mário e Júlio, do João Carteiro, vindos da do Giestal, nas Casas-dos-Montes, e o Luís da Tia São, da de Santo Amaro), depois de se juntarem à entrada para o «’trei-ladrão”, atravessarem o Pedrete e espreitarem a ”Fonte da Moura”, os três “amadis de gaula” da GRANGINHA, subiam o monte do Picholeto. Alguns pinheiros e carvalhas pareciam querer marcar as fronteiras entre condados de giestas brancas, que mais se assemelhavam a castelos mouriscos onde se acolhiam coelhos bravios.

 

 

Sorrateiros, estes mosqueteiros da GRANGINHA aproximavam-se das «camas» e, assim que tal, mergulhavam olimpicamente sobre os felpudos láparos.

 

Às vezes, o coelho mais atento topava os três gandulitos. Dava uma patada forte no chão, espirrava sonoramente e formava um daqueles saltos de deixar qualquer um pasmado.

 

O susto de um alertava todos os outros.

 

 

E, então, era um estrelejar de saltos e correrias por entre as giestas, as carvalhas e os pinheiros até aos silvedos mais próximos da Fonte da Moura e às estratégicas tocas de todo o Pedrete!

 

O «Mono», das Casas-dos-Montes, empenhadamente a cuidar das suas sementeiras e plantações, arreliava-se sempre que o seu macho relinchava e se empinava com o susto pregado pelos coelhos que lhe roçavam as patas ou o focinho enquanto pastava na erva tenrinha regada pelo rigueiro que, descido do Cando, corria até ao Tâmega.

 

A Ester, do Cando, já moçoila e hoje mulher do Roulo, entretida na horta, ria-se das diabruras dos três amiguinhos.

 

 

Passado o Alto das Carvalhas, e logo no Alto do Cando, as giestas brancas tomavam conta do monte, como que abrindo alas para a «Lama» e o «Frei Janeiro».

 

Os três «caballeros brincallantes”, inocentes “don quijotes de la Grangiña”, abraçavam as flores das giestas e davam beijinhos nas pétalas julgando-as gotas de mel caídas dos lábios de uma Dulcineia.

 

Para desanuviar a preocupação da ‘Vó São e da mãe Teresa do João Carteiro, os três aventureiros arranjavam, às vezes, meia dúzia de galhos de giesta, atavam-nos, como calhava, com um improvisado “bencelho”, e aliviavam o ralhete oferecendo-os a uma e a outra como vassoura para se varrer as escadas ou o chão da lareira!

 

 

Mais tarde, nos amanheceres frescos ou ainda nos mornos fins de tarde do 3º Período do Liceu, o Luís da Tia São sentava-se no meio de um giestal, da Sobreira ou do Quinchoso, onde estudava as lições para os exames ou recitava poemas à sua amada.

 

     E, com Florbela, suspirava:

 

 

    Deixa dizer-te os lindos versos raros

 

    Que a minha boca tem pra te dizer !

 

    São talhados em mármore de Paros

 

    Cinzelados por mim pra te oferecer.

 

 

    Têm dolência de veludos caros,

 

    São como sedas pálidas a arder …

 

    Deixa dizer-te os lindos versos raros

 

    Que foram feitos pra te endoidecer !

 

 

    Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda …

 

    Que a boca da mulher é sempre linda

 

    Se dentro guarda um verso que não diz !

 

 

    Amo-te tanto ! E nunca te beijei …

 

    E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

 

    Guardo os versos mais lindos que te fiz!

 

 

M., 28 de Março de 2014

 

Luís Henrique Fernandes

 

Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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