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Sábado, 30 de Agosto de 2014

Contributos - Sr. Luís Fernandes - “… COMO SE FOSSE MEU”!

 

 

 

“… COMO SE FOSSE MEU”!

 

 

A primeira vez que viajei de comboio, apanhei-o na FONTE NOVA, foi para ir ser baptizado, num dia 13 de Outubro da II GG, pelo Pe. José do Nascimento Barreira, na Igreja de S. Pedro, em Vila Real.

 

A minha madrinha, irmã da minha avó materna, Conceição, tinha mais 58 anos do que eu.

 

O meu padrinho, filho de uma família muito amiga da minha madrinha, tinha mais 8 (oito!) anos do que eu.

 

Madrinha e padrinho moravam na «Bila». Ela, no Largo da Capela Nova; ele no Largo de S. Pedro, em casa anexa à Escola Comercial.

 

A madrinha era zeladora da Igreja do Carmo; o padrinho, filho de um célebre guarda-redes do Sport Club de Vila Real - o Silvino!

 

A essa primeira viagem seguiram-se outras, mais espaçadas, até à frequência do Liceu Camilo Castelo Branco, situado lá ao fundo da Avenida Carvalho Araújo e juntinho à entrada para a “Vila Velha”!

 

A Estação da «minha vida» era o Apeadeiro da FONTE NOVA.

 

Descia as Carvalhas, atravessava o Pedrete, descia o Monte da Forca e já estava na FONTE NOVA.

 

Ouvia as últimas recomendações da Avó São, dos primos e da D. Lucindinha, guarda da linha, trepava para a varanda, arrumava as cestas das «lembranças» e acenava-lhes, qual cavaleiro triunfante a iniciar uma nova cavalgada.

 

Passada a curva que escondia a Azenha do Agapito preparava-me para dizer adeus a quem estivesse à vista em S. FraGústo. Até chegar ao apeadeiro de Curalha sentia-me como se estivesse a percorrer o meu império. Ao atravessar a ponte parecia-me estar a atravessar uma fronteira. Olhava para os moinhos, para o açude e para a encosta que sobe até à MINHA ALDEIA, e logo no peito sentia uma picada de saudade.

 

 

Em todas as paragens arregalava os olhos como que a catar quadros que me contassem histórias fantásticas de donzelas, cavaleiros e mouros, de gente misteriosa e diferente, de parentes afastados que numa, duas ou três aldeias desses apeadeiros ainda por lá terei.

 

De Oura até Vila Pouca, julgava atravessar território «índio» ou de salteadores encapuzados.

 

Em Vila Pouca a paragem era, parecia-me, sempre muito mais demorada. Talvez fosse para o comboio esperar um bocadinho por uma qualquer «carreira» que viesse atrasada, desde o Alvão ou desde a Padrela!

 

Na estação da Samardã espreitava para todo o lado a ver se via rasto ou sombra de Camilo ou assistia a algum momento da «morte do lobo».

 

Na paragem de Abambres, já «estudante», na «Bila», aproveitava para fazer o levantamento topográfico de galinheiros e coelheiras, para o «assalto» do 1º de Dezembro.

 

A chegada, ou a partida, da Estação da «Bila», era sempre um «acontecimento».

 

Havia uma multidão de gente que chegava e que partia, quer para cima, quer para baixo, que é como quem diz, em direcção a Chaves ou em direcção à Régua.

 

 

Para se abraçar os familiares ou amigos (ou para se trocar o mais sôfrego e apaixonado olhar com o namorico!...) logo ao sair das carruagens, tinha de se pagar «bilhete de gare», na altura 1$00 (traduzo: UM Escudo) o que era uma fortuna, mesmo para os «estudantes» mais «afortunados»! Mas, de vez em quando, lá se arranjava maneira de fintar o Chefe da Estação e os «revisores».

 

De Chaves a Vila Real, e vice-versa, eram quase (ou sempre!) três horas de “truf-truf”!

 

Davam-me 20$00 (vinte escudos) para comprar o bilhete de 2ª, de Vila Real-Chaves e diziam-me:

 

- “Sobram dois tostões para qualquer eventualidade”!

 

(Era no tempo da fartura do aconchego familiar e do consolo de amigos!).

 

Às vezes, o comboio compunha-se com uma carruagem que transportava o correio.

 

O poβo dizia:

 

- “Olha, já lá vem (ou já lá vai) o comboio-correio”.

 

Às vezes, mais raras, havia um que dava saída a milhares de toneladas de “batatas de Chaves”.

 

O Poβo dizia:

 

- “Olha, lá vai (e só: lá vai!) o comboio-batateiro”!

 

Nos anos sessenta traziam e levavam gabelas de militares, que no BC 10 se preparavam para o «Ultramar». Algumas vezes, encheram-se de normando-tameganos com guia-de-marcha para os Quartéis de Recrutamento, qual deles o mais distante desta fronteira!

 

 

O «NOSSO» comboio também funcionava como contador do tempo: o que saía de Chaves, de manhã, avisava-nos da hora do levantar e preparar as trouxas para irmos para as aulas; o do «mei-dia» lembrava a muitas donas de casa que estava na hora de irem levar o almoço aos «homes» que andavam nas obras ou que trabalhavam nas Telheiras.

 

Hoje em dia, os bebés mais apressados nascem em ambulâncias (Já houve tempo em que deixaram de nascer em casa para nascerem na Maternidade do Concelho).

 

Outrora até se davam ao luxo de nascer no «NOSSO» comboio!

 

Então ouçam:

 

- Uma vez….

 

Havia as «CORRIDAS de VILA REAL».

 

Alguns polícias de Chaves foram lá reforçar a segurança.

 

Uma estremosa esposa de um dos mais simpáticos e bonacheirões polícias de Chaves, já com o tempo de gravidez contado, teimou em ir à «Bila» ver as «CORRIDAS» e envaidecer-se com o marido no «exercício de tão espectaculares funções».

 

 

As vizinhas bem a avisaram dos perigos que corria naquele estado.

 

Mas teimou, teimou, e proclamou:

 

- “Pois ir, vou”!

 

Não se hão-de a ficar a rir de mim”!

 

E foi.

 

Meteu-se no comboio, na Fonte Nova. Assistiu às «Corridas». Apanhou o comboio de regresso. E vinha toda triunfante e regalada por «ter levado a dela avante”!

 

Mas o bebé também quis caprichar.

 

Entre OURA e VIDAGO as dores de parto provocaram um enorme alvoroço.

 

Alguém puxou o alarme.

 

O maquinista ia morrendo de susto - nunca tal lhe tinha acontecido!

 

Parou o comboio.

 

A parturiente foi deslocada desde a Carruagem de 2ª classe, onde viajava, para uma Carruagem de 1ª classe.

 

Ao menino e ao borracho!.....

 

E não é que nessa Carruagem de 1ª classe viajava um Enfermeiro?!

 

Nasceu uma rapariga, linda de verdade. Mais linda do que a Ricardina do retrato.

 

Lá em Chaves, em criança, mal ouvisse o comboio a apitar, dizia, toda vaidosa, para quem a quisesse ouvir:

 

- “O comboio é meu”!

 

O Enfermeiro foi seu padrinho de baptismo.

 

Quantos comboios se podem gabar de terem servido de Maternidade?!

 

A última viagem, na Linha do Corgo, de que guardo lembrança fi-la nos finais dos anos sessenta, num dia de um invernio Janeiro, com uma daquelas geadas de deixar qualquer mortal feito em caramelo, desde a Régua até às Pedras Salgadas.

 

O comboio da Linha do Corgo foi, e é, sempre como se fosse meu!

 

 

M., 13 de Março de 2014

 

Luís Henrique Fernandes

 

In

Memórias de Uma Linha

Linha do Corgo

Edição da Lumbudus - Associação de Fotografia e Gravura

28 de Agosto de 2014

 

Visite a exposição fotográfica:

 

 
 
 
Publicado por Humberto Ferreira às 00:05

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5 comentários:
De herminiaparente a 30 de Agosto de 2014 às 11:41
Muito bom o texto do Luis Fernandes, parabéns ao meu querido amigo e meu (irmão), da Ricardina da Granjinha, ter nascido no comboio, eu já sabia dessa à muitos anos, quando eu ia à Granjinha e brincávamos juntas.
De Nuno Santos a 31 de Agosto de 2014 às 09:03
Parabéns ao Sr. Luís Fernando que, embora admirador não tenho o prazer de o conhecer, por mais este belo texto. Também eu tenho gratas recordações do velho Texas, desde logo porque a primeira vez que saí do vale de Chaves, foi para vir para a Lisboa em 30 de setembro de 1973 e fi-lo de comboio, primeiro de Chaves até à Régua, depois até ao Porto-Campanhã e por fim Lisboa-Santa Apolónia.
Cumprimentos,
De Luís Henrique Fernandes a 31 de Agosto de 2014 às 22:43
Nuno Santos, agradeço o seu comentário.
Uma viagem nesse comboio, nos anos setenta também deve ter sido uma linda aventura - só até à Régua - ou mesmo até Lisboa.
Ora faça favor de contar se não ficou com o colarinho da camisa ás pintinhas ou risquinhas pretas pretinhas logo ao atravessar a Ponte de Stº Amaro (lugar onde o maquinista se consolava por fazer uns apitos estrondosos e demorados!) ou ao chegar à Samardã, onde o vento atirava com as faGulhas para dentro das carruagens, a parecer, até, que o fazia de propósito!
E não tentou «catrapiscar com «as meninas» que entravam em Vila Pouca, a caminho do Liceu, do Colégio …ou da Escola Normal de Vila Real?
Na muda de comboio, na Régua, não provou os «rebuçados da Régua»?!
E…..
Ora conte lá uma dessas suas historiazinhas engraçadas que acrescentam razões para que “O NOSSO COMBOIO” NUNCA tivesse deixado de existir!
Naquele (meu) tempo (e até no seu) a Estação de CHAVES ….. e mesmo a de Vidago eram bem mais lindas do que a de Stª Apolónia!

Têm dado tanto cabo da NOSSA TERRA!


M., 31 de Agosto de 2014
Luís Henrique Fernandes
De vasco sobreira garcia a 31 de Agosto de 2014 às 17:58
bela narrativa
a primeira vez que andei nesse comboio tinha 6 anos e fui para o porto passar férias depois seguiram-se mais alguns anos
depois houve um interregno e quando eu minha ma~e e irmã viemos embora lá fomos pela velha linha do corgo
toda a vez que prava numa estação chamada mosteirô eu via aquele abismo entre a estação e o rio douro e dizia como esta gente pode viver aqui pois é mais tarde vim a casar com uma mulher natural de ancede de onde mosteirô faz parte e de onde a minha sogra é natural
De Luís Henrique Fernandes a 31 de Agosto de 2014 às 22:48
Vasco S. Garcia, e não nos quer falar dos cabazes de uvas tão saborosinhas que (LHE) traziam à Estação?!
Bem, já nem lhe lembro o «vinho fino»......schiu! Que NINGUÉM sabe o que é!...........
Aproveite a sorte que tem!.....

Cumprimentos

Luís Henrique Fernandes

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